“Perdi uma perna, não os sonhos”: a história de António Eduardo, do Uíge aos relvados da Turquia
Há histórias que começam com uma perda e acabam a contar-se em vitórias. A de António Eduardo é uma delas: aos seis anos ficou sem uma perna num acidente de viação; hoje, aos 27, é atleta internacional, empresário e sonha vestir a camisola da Selecção Nacional de Angola.
Natural da província do Uíge, António Eduardo, de 27 anos, nasceu a 5 de Maio de 1999. Frequentou o ensino primário no Colégio Eranilson, no Golfo II, fez a 10ª classe no Colégio Alberto, no Kilamba II, e concluiu a 11ª e a 12ª classes no Colégio Alberto, no Golfo II. Aos seis anos sofreu um acidente de viação que resultou na perda de um dos membros inferiores — um episódio que viria a marcar, para sempre, a sua forma de olhar a vida.
“Realmente, esse foi o momento mais difícil da minha vida: adaptar-me a uma nova realidade na qual não estava acostumado”, recorda. A infância foi marcada pelo preconceito e pela sensação de ser diferente das outras crianças. Foi, contudo, com fé que encontrou o caminho para a aceitação. “Aprendi a aceitar-me, e aprendi que as diferenças fazem parte da vida. A partir deste momento, abri o caminho, a liberdade, e tenho feito de tudo para vencer o preconceito”, sublinha.
Da barbearia à escola: o espírito empreendedor
Cedo percebeu que, sendo uma pessoa com deficiência, não seria fácil encontrar emprego em Angola. Sem apoio suficiente para investir na sua formação, decidiu criar o seu próprio caminho: aos 16 anos abriu a primeira barbearia e, dois anos depois, já com 18, inaugurou a segunda — sinal de um negócio que ia crescendo com esforço e dedicação.
O espírito empreendedor levou-o mais além. Aos 20 anos abriu a sua própria escola em Angola, que hoje conta com 150 alunos e continua a crescer — projecto nascido das dificuldades que ele próprio viveu para poder estudar. “No meu bairro tinha muitas crianças fora do ensino escolar, e eu não quis que passassem pelas mesmas dificuldades que eu passei”, explica. Gerir o projecto à distância, a partir da Turquia, não tem sido tarefa fácil — sobretudo pela dificuldade em encontrar pessoas verdadeiramente comprometidas com a causa — mas António garante que tem feito “o possível para manter o projecto em bom funcionamento”.
A par da educação, dedica-se ainda à exportação e importação de mercadorias entre Angola e a Turquia, uma actividade que nasceu da percepção de boas oportunidades de negócio entre os dois países. Os preços elevados cobrados pelas agências são o principal obstáculo, mas a disciplina e a organização têm permitido dar continuidade ao projecto.
O desporto como forma de vencer o preconceito
Foi em 2014, por intermédio de um senhor que lhe falou sobre o desporto adaptado, que António começou a treinar no Clube 1º de Junho de Viana, onde continua inscrito em Angola — um convite inesperado que, nas suas palavras, “deu uma reviravolta” na sua vida.
“O desporto teve um papel muito importante na minha vida, principalmente para vencer o preconceito e aceitar-me do jeito que eu sou”, afirma. Foi através do futebol adaptado que compreendeu que a deficiência “é simplesmente uma condição e não a perda da capacidade”. Ao longo da carreira, o angolano já conquistou praticamente todos os títulos disputados a nível nacional — taça, supertaça e campeonato nacional —, conquistas que, diz, representam “vitórias sobre as dificuldades” que enfrentou ao longo da vida.
Não é por acaso que a selecção angolana de futebol para amputados desperta tanto interesse lá fora: além do título mundial de 2018, no México, Angola foi ainda vice-campeã em 2014 e voltou a arrecadar a medalha de prata em 2022, na Turquia — um percurso que colocou o país entre as principais potências mundiais da modalidade e que tem aberto portas a atletas angolanos em clubes estrangeiros, como aconteceu com António.
Rumo à Turquia
António Eduardo deixou Angola em Outubro de 2024, contratado para representar, na Turquia, o İstanbul Şişli Yeditepe Engelliler Spor Kulübü, uma das equipas de referência da Super Liga turca de futebol adaptado, competição que reúne dezenas de clubes espalhados por todo o país.
A oportunidade surgiu na sequência do reconhecimento internacional conquistado pelo futebol adaptado angolano, sobretudo depois do título de Campeão do Mundo, em 2018 — uma conquista colectiva de que António também beneficiou. Juntou-se a esta motivação desportiva a vontade de internacionalizar a carreira e de se abrir a novos horizontes.
Vai já na terceira temporada ao serviço do clube turco e, este ano, renovou contrato por mais duas épocas — um voto de confiança que traduz bem a forma como se afirmou dentro e fora do relvado.
A adaptação, reconhece, não foi fácil. A língua, o clima frio e a alimentação foram os maiores desafios, agravados pelo facto de os técnicos e colegas de equipa serem turcos e não falarem português nem inglês. “Aos poucos, temos-nos adaptado”, garante, sublinhando que a equipa tem feito “o possível para criar um bom ambiente” e alcançar bons resultados.
Comparando as duas realidades, António considera que a Turquia está “no primeiro grau” no que toca à organização do futebol adaptado, com boas condições de treino e apoio intenso aos atletas. Já em Angola, apesar do talento existente, falta ainda construir uma estrutura sólida e investir mais no desporto, de forma a permitir que mais jogadores alcancem o nível profissional.
Angola continua no pensamento
Apesar da distância, António acompanha regularmente o que se passa em Angola, através das redes sociais e do contacto permanente com familiares e amigos. “Quando é uma situação positiva, procuro incentivá-la; quando é menos boa, analiso e procuro passar ideias que possam ajudar a ultrapassar a situação”, conta.
É essa ligação que o move a continuar a investir no país, através do empreendedorismo, da educação e do desporto. “Angola é de todos nós, e somos nós para fazermos alguma coisa pelo nosso país. Cada cidadão tem uma responsabilidade importante no desenvolvimento de Angola”, defende.
O sonho de vestir a camisola da Selecção
Entre os projectos para o futuro, um destaca-se: representar a Selecção Nacional de Angola. “Vestir a camisola da selecção seria a consumação da minha carreira profissional, e seria uma grande honra. Mostraria que o esforço e a dedicação valeram a pena”, afirma. Para além do desporto, pretende continuar a expandir os projectos de empreendedorismo e educação, ajudando outros jovens a alcançar os seus próprios objectivos.
Uma mensagem de perseverança
À juventude angolana e, em particular, às pessoas com deficiência, António deixa uma mensagem clara: “O facto de terem perdido um dos membros não quer dizer que perderam a capacidade. Aceitem-se do jeito que vocês são, porque a diferença faz o mundo.”
E remata com um apelo à fé e à determinação: “Vão atrás dos vossos sonhos. Esforcem-se, dediquem-se, porque são mesmo vocês para fazerem por vocês aquilo que tanto almejam alcançar.”
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