Jorge Adão, anestesiologista angolano ao serviço da saúde internacional.
Jorge Amado Domingos Adão, de 31 anos de idade, natural de Cazenga (Luanda), é um profissional da saúde cuja trajectória académica e humana se construiu para além das fronteiras angolanas.
Licenciado em Anestesiologia e Reanimação pelo ISPITS MARRAKECH, instituição sob tutela do Ministério da Saúde do Reino de Marrocos, é igualmente mestre em Práticas Avançadas em Saúde, formação obtida na Universidade Hassan I, na cidade de Settat.
A sua história fora de Angola começou a 13 de Outubro de 2013, data em que deixou o país motivado pela atribuição de uma bolsa de estudos do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE).
“Aproveitei esta oportunidade que considero uma graça de Deus”, afirma, sublinhando que foi em Marrocos que consolidou a sua formação académica e profissional.
Uma vocação que nasceu cedo
O interesse pela área da saúde manifestou-se desde a infância. “Quando, nas actividades da igreja, eram solicitados para representar o que queriam ser no futuro. Ele representava sempre um médico”, recorda. Embora o seu desejo inicial fosse seguir Medicina, ao chegar a Marrocos foi orientado para a Anestesiologia e Reanimação — uma especialidade que, segundo explica, é oferecida de forma directa em poucos países.
A adaptação à área revelou-se natural. O contacto com a prática clínica, os estágios e o exercício profissional despertaram nele uma paixão crescente, levando-o a aprofundar os seus conhecimentos com um mestrado em Práticas Avançadas em Saúde, uma área ainda pouco conhecida, mas com grande potencial de crescimento a nível mundial, inspirada no modelo belga.
Solidariedade e compromisso comunitário
Para além da prática clínica, Jorge Amado Domingos Adão é cofundador do projecto sanitário “Cuida de Ti / Prends Soin de Toi Marrocos”, uma iniciativa voltada para a promoção da medicina preventiva, sobretudo junto da comunidade subsaariana residente em Marrocos.
“O objectivo era sensibilizar as pessoas para não irem ao hospital apenas quando já estão em estado grave”, explica.
A participação em jornadas científicas, acções humanitárias e projectos comunitários contribuiu não só para o reforço dos seus conhecimentos técnicos, mas também para o seu crescimento pessoal.
“Estas experiências deram-me competências que nem todos têm a oportunidade de desenvolver”, afirma.
Profissional multifacetado
Actualmente, exerce funções como Técnico Anestesista e Reanimador, bem como Agente de Evacuação Aeromédica, realizando evacuações sanitárias por via aérea e terrestre. Paralelamente, actua como tradutor de português–francês e francês–português, conciliando a actividade clínica com outras áreas do conhecimento.
Apesar dos desafios, considera que a sua actividade profissional lhe permite uma vida digna. “Não é uma vida de riqueza, mas é possível sustentar a família, viver e também desfrutar de momentos de lazer.”
Projectos futuros e ligação a Angola
Entre os seus principais objectivos está a realização de um doutoramento, para o qual já iniciou pesquisas e contactos académicos.
A nível pessoal, pretende expandir o projecto “Prends Soin de Toi” para Angola e outros países, criando uma rede de apoio focada na prevenção e educação em saúde.
Embora não tenha planos imediatos de regresso definitivo a Angola, garante que esse desejo existe, porquanto “os bons filhos regressam sempre a casa”.
Acrescentou ter estado recentemente no país, onde observou avanços, mas também fragilidades, sobretudo no sector da saúde.
Um olhar crítico e construtivo sobre o país
Atento à realidade nacional, acompanha a situação social, económica e política de Angola através da televisão e das redes sociais.
Reconhece que o país “ainda tem muito por dar” e acredita em dias melhores.
No sector da saúde, defende mais oportunidades para a juventude, melhor apetrechamento dos hospitais e a adaptação de modelos internacionais à realidade angolana.
Acredita que a sua especialização — particularmente na área da anestesiologia e reanimação cardiovascular, considerada rara em Angola — pode dar um contributo significativo.
Nesse sentido, encontra-se a desenvolver um livro intitulado “Anestesiologia e Reanimação – Um Guia de Bolso”, pensado como ferramenta prática para profissionais da área.
A obra, ainda em elaboração, deverá contar com o prefácio de um professor marroquino e poderá futuramente ser disponibilizada em Angola.
Saudades e identidade multicultural
Casado com uma cidadã da República Centro-Africana e pai de família, Jorge Amado define-se como um homem multicultural.
A adaptação aos diferentes contextos culturais e linguísticos fez parte do seu percurso, especialmente no ambiente hospitalar, onde o domínio da língua local é essencial.
Apesar de visitar Angola sempre que possível, confessa sentir saudades da família, dos amigos e, sobretudo, da gastronomia angolana.
Uma mensagem à juventude
Aos jovens angolanos que sonham com uma carreira na área da saúde, deixa uma mensagem clara: foco, perseverança e resiliência. “Estudar fora não é mais fácil. Exige muito sacrifício, mas quando se tem um objectivo bem definido é possível alcançá-lo.
Conclui sublinhando que a anestesiologia é uma área exigente, mas profundamente gratificante. “Ver um doente recuperar é uma sensação de realização que não tem preço. Lutem pelos vossos sonhos, porque ninguém os realizará por vocês.”








