“Angola está em cada passo que dou” — Morenasso Crack, o angolano que levou a Kizomba a 97 países
Tem o mundo a seus pés, mas o coração firmado em Luanda. Helder Luciano Ricardo, mais conhecido por Morenasso Crack — The King of Kizomba — é natural de Angola, filho de uma família do Kwanza-Sul, e há mais de duas décadas vive em Paris, onde construiu uma carreira que o tornou uma das referências mundiais da dança angolana. Director da escola Sensualonda — Casa dos Artistas, organizador de festivais internacionais e embaixador cultural de Angola em cada palco onde pisa, Morenasso Crack é o retrato de quem apostou tudo numa paixão e ganhou.
Uma trajectória marcada pelo talento e pela garra
O percurso de Morenasso Crack não começou nas pistas de dança. Começou nos relvados. Cresceu em Luanda numa família com raízes profundas no Kwanza-Sul, e foi o amor do pai pelo futebol — “um autêntico benfiquista”, recorda com afecto — que o empurrou para as primeiras balizas.
Ingressou na Escola Joka Sport, a primeira escola de futebol de Angola, e mais tarde na FESA — Fundação Eduardo dos Santos. O talento foi reconhecido: integrou a Seleção Nacional Sub-17 sob orientação do professor Joaquim Diniz, e chegou à Sub-20 com o professor José Kilamba, sagrando-se melhor guarda-redes.
“Integrar uma seleção não é fácil. É preciso ter talento, é preciso ter cabeça. Eu sempre fui uma pessoa com muita vontade de fazer aquilo que vem para a minha cabeça”, afirma.
A decisão de sair de Angola
Em 2002, deixou Angola com um único propósito: jogar futebol a nível profissional. A oportunidade surgiu através do seu manager, António Kavungo.
O percurso europeu foi intenso: testes no Sporting de Braga e no Benfica, em Lisboa; uma paragem em Tenerife, em Espanha; um campo de treino do Ajax, na Holanda; e, finalmente, Paris — onde o Paris Saint-Germain o recebeu na equipa B. Mais tarde, pelo Paris FC, conquistou a subida ao campeonato nacional francês.
O sonho parecia próximo — até surgirem as lesões.
De guarda-redes a rei da Kizomba: uma vida reinventada
No final de 2007, uma rotura muscular no ombro afastou-o dos relvados. Uma segunda lesão no mesmo local fechou definitivamente a porta ao futebol.
Sempre gostava de dançar — “desde criança, nunca fui uma pessoa a ficar num cantinho” —, mas foi em 2008, com a explosão da Kizomba na Europa, que tudo mudou.
Participou na competição “África a Dançar”, ao lado da bailarina Anaïs Milon, e sagrou-se campeão de França. Na final em Lisboa terminaram em quarto lugar, mas o impacto foi imediato. Entre 2008 e 2009, nascia a carreira de Morenasso Crack.
Sensualonda — Casa dos Artistas
Após anos de estrada, nasceu em Outubro de 2024 a Sensualonda — Casa dos Artistas, em Rueil Malmaison / Paris.
“Qualquer angolano que venha a Paris já tem um lugar onde ir dar uma passada”, explica, comparando com o papel do clube Mangolé em Lisboa.
Na escola ensinam-se Kizomba, Semba, Afro House, Tango, Salsa, Bachata, Rock e também Afro-Kids, uma vertente dedicada às crianças.
Antes disso, a sua primeira escola foi a Napoli Kizomba, na cidade de Napoli, Itália, criada em 2015 com o seu estudante Walter Antonini — um marco importante na sua trajetória.
Gerir uma vida entre palcos e continentes
Viver da dança durante anos não é acaso — é disciplina. Morenasso Crack construiu uma carreira sólida através de workshops, festivais e eventos internacionais, tendo também organizado eventos de referência como o Tentação, realizado em Paris e no Rio de Janeiro, o Ta Kuyar Festival em Valência e o Napoli Weekender em Itália, este último em parceria com Walter Antonini.
Colaborou com artistas como Badoxa E-Karga, Angelo Boss, Kassav, G-Amado, Costuleta, Yasmine, Jean Claude Naimro, Josslyn, entre outros.
Vida pessoal
Morenasso Crack é pai de três filhos. Com a sua esposa atual, tem uma filha; os outros dois filhos são de uma relação anterior. “Sou um homem muito feliz”, afirma.
Os projectos para o futuro
Entre os projectos destaca-se o “We Love Angola”, desenvolvido em parceria com Dilson Kizomba e Nuno Manster, que leva estudantes a Angola para conhecerem a cultura, o carnaval, a gastronomia e as origens da Kizomba e do Semba.
A sua grande missão é clara: estruturar e codificar a dança angolana a nível internacional e contribuir para a formação profissional em Angola.
Angola no coração
Mesmo a viver em França, mantém uma ligação forte com Angola. Acompanha o país à distância e faz visitas regulares com os filhos.
Sente saudades da família, da comida — funge de moamba, feijão de palma, peixe frito — e da terra.
“Cada dia que penso na minha família, tenho vontade de estar perto.”
Uma mensagem à sua geração
Morenasso Crack deixa uma mensagem direta: “A dança não é fácil. Para irmos mais longe, temos que saber os códigos, temos que trabalhar. A dança não é freestyle. Para ser aceite fora, tens que mostrar os teus códigos. Então, a força que eu dou aos meus irmãos: esforcem-se, não deixem de dançar, não deixem de treinar, não baixem a cabeça. Se eu Morenasso Crack consegui, por que é que tu não vais conseguir? A dança é batimento do coração. Enquanto o coração bate, temos que trabalhar e conservar este legado. A união faz a força.”
Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)










