“Angola não sai de mim”— Neusa Vunda, a jovem angolana que apostou tudo na formação além-fronteiras
Tem 25 anos, saiu de Angola com uma mala de sonhos e a determinação de quem sabe o que quer. Neusa Moisés Vunda é natural de Luanda — mais precisamente do bairro de Sambizanga — e há quatro anos vive no Brasil, onde constrói, passo a passo, a carreira que sempre imaginou. Estagiária na Justiça Federal de Santa Catarina e estudante de Administração, esta jovem angolana é o retrato de uma geração que não espera que as oportunidades batam à porta.
Uma trajectória marcada pela resiliência
O percurso académico de Neusa não foi linear. Concluiu o ensino médio em 2019, no Liceu nº 4083 Cacuaco, Gika— e, no ano seguinte, tentou o acesso à Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto. Não passou. Em pleno ano pandémico, ficou em casa, mas não baixou os braços.
“Voltei a tentar, porque o sonho de me formar continuava”, recorda. Em 2020, candidatou-se ainda à Universidade Metodista e à UAN. Passou na Metodista, mas as condições financeiras não permitiram a matrícula. Em 2021, insistiu novamente — desta vez com a bênção da mãe, que sempre foi o seu maior pilar — e conseguiu entrar no curso de Contabilidade e Auditoria da UAN, com a classificação de 15 valores. “Foi mesmo a graça de Deus”, diz, sem hesitar.
Fez os dois primeiros anos do curso e, em 2022, tomou uma decisão que mudaria a sua vida: partir.
A decisão de sair de Angola
A vontade de partir não nasceu de um impulso. Neusa candidatou-se a bolsas de estudo para dois países — a Rússia e o Brasil, através da Unilab (Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira). Passou nos dois processos selectivos. Os resultados da Unilab saíram primeiro.
“Como eu tinha muita ânsia de poder sair e procurar melhores condições de vida — não só para mim, mas também para a minha família —, e o estudo é muito importante para mim, decidi arriscar. Já que havia uma luz verde, atirei-me”.
Em Agosto de 2022, embarcou para o Brasil. A motivação era clara: “Saí de Angola em busca de oportunidades académicas e profissionais e também para ampliar a minha visão sobre o mercado de trabalho e o mundo em si”.
De Fortaleza a Florianópolis: um percurso de adaptação
A chegada ao Brasil não foi fácil. Neusa aterrou primeiro em Fortaleza, onde frequentou a Unilab. Longe de São Paulo, cidade onde residem alguns dos seus familiares, o primeiro semestre foi particularmente difícil.
“Eu não conseguia ver a minha família. Foi muito duro”, recorda. Mais tarde, fez uma transferência interna para a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, onde actualmente estuda Administração. A adaptação ao Sul do Brasil trouxe novos desafios: uma cidade mais calma, muito diferente de São Paulo, e um clima frio que a surpreendeu. “Aqui faz muito frio. Foi muito difícil adaptar-me”.
Ainda assim, a proximidade a São Paulo tornou-se um alento. Sempre que pode — especialmente nas férias —, vai visitar os familiares. “Para não me sentir sozinha, nem deprimida”, admite com sinceridade.
Da Administração ao estágio na Justiça Federal
A escolha do curso não foi ao acaso. “A Administração é uma área muito versátil e sempre tive interesse em gestão, organizações e tomada de decisões estratégicas. Penso, futuramente, actuar em grandes empresas ou multinacionais”.
Para além da formação teórica, Neusa decidiu ganhar experiência prática. Candidatou-se ao processo selectivo de estágio da Justiça Federal de Santa Catarina — um processo que, segundo explica, acontece regularmente — e foi seleccionada. Hoje, integra o Departamento de Desenvolvimento Humano (DADH), onde actua como auxiliar em processos administrativos, na organização de eventos de capacitação e no atendimento ao cliente interno e externo.
“Consegui esta oportunidade através do processo selectivo e da dedicação académica”, sublinha, com orgulho.
O seu dia a dia é inteiramente centrado no equilíbrio entre o estágio e a universidade. “O meu principal foco está na formação académica, tentando equilibrar teoria e prática para um melhor desempenho profissional”.
Gerir a vida numa cidade cara
Florianópolis é uma das cidades com custo de vida mais elevado do Brasil. Neusa reconhece o desafio, mas não se queixa. Com o subsídio de estágio e o apoio da universidade, vai gerindo as suas despesas.
“Com organização e planeamento financeiro, consigo mais ou menos lidar com o custo de vida aqui”, afirma, sem dramatismos.
Os planos para o futuro
Os projectos de Neusa são ambiciosos, mas sólidos. A prioridade imediata é concluir a licenciatura. A seguir, o horizonte aponta para uma multinacional ou grande empresa e, posteriormente, para um mestrado ou pós-graduação em gestão e auditoria.
“Quero ter o melhor desempenho possível, tanto a nível académico como profissional”, assegura.
Quanto a regressar a Angola, a questão ainda está em aberto. “Considero muito prematuro dizer se volto, mas se voltar, claramente voltarei com bagagem suficiente para contribuir significativamente no desenvolvimento económico e social de Angola. Por agora, não tenho focado muito nessa questão — mas quem sabe. A tua casa é a tua casa”.
Angola no coração, apesar da distância
Viver longe não significa esquecer. Neusa acompanha de perto o que acontece em Angola, sobretudo através das redes sociais e das conversas com a mãe, que a mantém actualizada sobre os acontecimentos no país.
“Há um ditado que diz que o angolano pode sair de Angola, mas Angola não sai dele. Acompanho detalhadamente alguns assuntos — uns tristes, outros nem tanto —, mas mantenho-me sempre actualizada”.
A reacção ao que observa nem sempre é positiva. “ A reacção tem sido não das melhores. Pergunto-me por que não resolvem, por que não há soluções para certos acontecimentos que têm chocado a comunidade angolana, na diáspora e não só. Os que vivem isso na pele, estando lá em Angola, acho que é ainda mais difícil”.
Apesar disso, Neusa não abandona a esperança numa Angola diferente. Participa, sempre que possível, nas actividades da comunidade angolana de Florianópolis — uma forma, diz, de não esquecer as suas raízes.
“É uma forma de não esquecer de onde vim”.
Uma mensagem à sua geração
Neusa acredita profundamente no papel dos jovens na transformação de Angola. A mensagem que deixa é a de quem fala com convicção e experiência própria.
“O futuro de Angola depende de nós. Como jovens que ainda estão na flor da idade, conseguimos contribuir e trabalhar significativamente para o desenvolvimento do país. Com força de vontade e dedicação, conseguimos fazer uma Angola melhor. Acredito que existem jovens capacitados, com posicionamento e punho firme, e que conseguimos dar a volta por cima. Cada um de nós tem essa responsabilidade de transformar Angola no país que sempre sonhámos que seria”.
Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)








