30 de May, 2026
#A nossa diáspora #Capa #Multimedia #Vídeo

Epifanio Tunguila Imbinga: do Cazenga à Hungria, a construir uma ponte verde entre África e a Europa

Natural do município do Cazenga, em Luanda, Epifanio Augusto Tunguila Imbinga, de 25 anos, é um dos jovens angolanos que mais se tem destacado na diáspora europeia. Licenciado com distinção máxima em Engenharia Agronómica pela Hungarian University of Agriculture and Life Sciences, vencedor do prestigiado prémio científico TDK — o mais relevante do universo universitário húngaro —, presidente da Associação dos Estudantes Angolanos na Hungria e investigador no World Food Forum, Epifanio constrói, com determinação e visão, uma trajectória que coloca Angola no centro de todas as suas ambições.

O percurso académico de Epifanio começou no Colégio Dom Moisés, em Luanda, onde completou o ensino primário e secundário. Em 2016, ingressou no então Instituto de Topografia, actualmente designado Instituto Politécnico de Ciências Geográficas, onde concluiu, em 2019, o curso técnico de ensino médio em Topografia.

Ainda nesse ano, ingressou no ensino superior no ISPTEC, instituição onde estudou Geofísica durante dois anos, antes de rumarem os seus passos para a Europa Central.

“Esse foi sempre um desejo meu desde criança: fazer o ensino superior no exterior e adquirir o conhecimento científico e técnico profundo num ecossistema de referência global, para depois transformar este aprendizado em soluções práticas aplicáveis à realidade do nosso país”, conta.

Em Setembro de 2021, Epifanio partiu de Angola como bolseiro do programa Stipendium Hungaricum, um dos mais competitivos esquemas de bolsas governamentais da Europa. A Hungria seria a sua nova casa.

Da lavra da mãe à Engenharia Agronómica

A escolha pela Agronomia não foi obra do acaso. Epifanio encontra as raízes dessa decisão na infância, nas memórias do campo cultivado pelas mãos da mãe.

“Desde pequeno, vi o esforço da minha mãe enquanto se dedicava na lavra da nossa família e criei o desejo de entender qual era a explicação de todos os processos que estavam por detrás daquilo que ela fazia”, recorda.

A experiência académica na Hungria foi, nas suas palavras, simultaneamente enriquecedora e exigente. O esforço compensou: Epifanio concluiu a licenciatura com a classificação máxima de A+, tornando-se num dos estudantes mais distinguidos do seu curso.

A consagração chegou também pelo reconhecimento científico. A sua tese de licenciatura, dedicada ao Consumo Sustentável de Alimentos, valeu-lhe o prémio TDK — o mais prestigiado galardão científico das universidades húngaras —, distinção raramente atribuída a estudantes estrangeiros. As conclusões do trabalho apontam para uma tendência encorajadora: os jovens estão cada vez mais conscientes da necessidade de um consumo responsável, evitando o desperdício alimentar como forma de preservar recursos para as gerações futuras.

“Acredito que a sustentabilidade começa no comportamento humano. E é muito positivo perceber que existe uma clara mudança, visto que os jovens estão a consciencializar-se para um consumo mais sustentável”, sublinha.

A Syngenta e o mundo corporativo

O percurso de Epifanio não ficou confinado às salas de aula. Um encontro fortuito no dormitório universitário abriu-lhe as portas de uma das maiores multinacionais agrícolas do mundo.

“Conheci uma jovem húngara que se simpatizou comigo pelo facto de eu tentar falar com ela na sua língua. Ao aperceber-se de que eu cursava Engenharia Agrícola, convidou-me para fazer parte de um projecto de pesquisa de sementes vegetais na Syngenta como estagiário”, recorda.

O estágio na Syngenta revelou-se um marco determinante na sua formação, expondo-o à lógica e às exigências do mercado corporativo internacional.

Presidente da Associação e voz dos estudantes angolanos

Em Setembro de 2024, Epifanio assumiu a presidência da Associação dos Estudantes Angolanos na Hungria, após ter servido como vice-presidente para a área académica. A candidatura foi única, sustentada pela confiança da comunidade estudantil que representa.

A associação acompanha actualmente cerca de 115 estudantes bolseiros e mais de dez autofinanciados. Os desafios são conhecidos: a barreira linguística — tanto o húngaro como o inglês —, os invernos rigorosos e a saudade da família são as principais dificuldades enfrentadas pelos jovens angolanos.

Sustentabilidade global e o World Food Forum

Em Outubro de 2025, Epifanio representou Angola como delegado internacional no Congresso Internacional em Defesa da Mãe Terra, realizado em Caracas, na Venezuela. Foi nesse fórum que lideranças globais da sustentabilidade tomaram nota do seu perfil e o convidaram a integrar o capítulo húngaro do World Food Forum, onde actualmente investiga questões de Segurança Alimentar e Sustentabilidade Global.

“Contribuir para o debate sobre a alocação de políticas alimentares globais é mais uma prova de que nós, a juventude angolana, temos voz e competência técnica para nos sentar nas mesas de decisão internacionais”, afirma com convicção.

A sua paixão pelo ambiente estende-se também à escrita. É autor do livro “Lavra Molecular” e desenvolve actualmente a série “Ciências da Terra”, onde procura tornar acessíveis, em linguagem simples, conceitos técnicos sobre irrigação e agricultura.

Uma ponte entre a Europa e África

A visão de Epifanio vai além do presente. A longo prazo, imagina um canal bidirecional onde as práticas de agricultura orgânica europeias possam ser adaptadas à realidade angolana, e onde Angola, por seu turno, ensine ao mundo como produzir em condições climáticas extremas.

“O clima está a mudar e a África tem muito a ensinar sobre resiliência”, nota.

Em Setembro de 2026, Epifanio iniciará o mestrado em Supply Chain Management, com o objectivo declarado de fortalecer o capital humano no Corredor do Lobito — um dos projectos de infra-estrutura mais estratégicos do continente africano —, contribuindo para a modernização das cadeias logísticas e produtivas de Angola.

A adaptação e a família longe de casa

Chegar à Hungria implicou aprender húngaro durante dois semestres intensivos. A distância da família, a frieza do inverno e o peso da solidão foram provas de carácter que Epifanio enfrentou com resiliência.

“Tive de sobreviver às dinâmicas europeias sem perder a minha própria identidade”, afirma.

Sem familiares de sangue na Hungria, foi a comunidade de estudantes angolanos — em particular os que chegaram no mesmo ano como bolseiros — que se tornou a sua família de jornada.

As saudades? Concretas e saborosas. “Sinto muitas saudades das nossas praias — aqui na Hungria não há praia. E da comida da nossa terra: a banana assada com ginguba, a calipota, os convívios tão cheios de alegria e partilha”, confessa.

Angola no coração, regresso certo

Apesar de viver a milhares de quilómetros, Epifanio acompanha de perto a realidade angolana pelas redes sociais e pelo contacto permanente com a família. A sua leitura é de “optimismo crítico”: reconhece os avanços, mas não fecha os olhos às dificuldades ainda por superar.

O regresso é, para si, uma certeza e um dever. “Como bolseiro do Estado angolano, regressar é um dever patriótico e institucional. Estas bolsas foram criadas com esse objectivo: capacitar estudantes a nível internacional para que regressem e contribuam para o desenvolvimento do seu país”, sublinha.

A mensagem que Epifanio Tunguila Imbinga deixa à juventude angolana é tão simples quanto desafiante:

“Invistam massivamente na vossa formação. Não deixem de acreditar no vosso potencial. Vão ter dificuldades, de vários níveis, mas foco, preparação e determinação podem ajudar-vos a vencê-las. As oportunidades vão aparecer — e vocês precisam de estar prontos para as agarrar com as duas mãos.”

Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)