2 de May, 2026
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“Sejam cultos para serem livres”: Cândida Guias e o sonho de levar Angola mais longe

Há caminhos que começam no coração de um bairro e nunca mais se desligam dele. O de Cândida da Costa Guias começou no Nelito Soares, no Rangel, em Luanda — entre ruas, vozes e vivências que moldaram não só a sua infância, mas também a mulher que viria a tornar-se.

Hoje, aos 35 anos, carrega essa origem como identidade. Porque, mesmo longe, há coisas que não se perdem: a forma de estar, o sentido de comunidade, a ligação profunda à cultura.
Foi aí que nasceu a certeza de que o seu caminho passaria pela comunicação e pela cultura.

Construir, crescer, dar voz

Licenciada em Ciências da Comunicação, Cândida entrou na Rede de Mediatecas de Angola ainda jovem. Cresceu por mérito, com consistência, até assumir funções de liderança antes dos 30 anos.

Mas o seu percurso nunca foi apenas técnico. Sempre houve um propósito maior: abrir espaço para outros.
Em 2022, ao integrar o programa “Política no Feminino”, na TPA, levou consigo essa missão. Mais do que participar, quis representar — dar voz a jovens, sobretudo mulheres, que raramente encontram palco.
Porque, para Cândida, comunicar nunca foi só informar. Foi sempre incluir.

Partir sem deixar de pertencer

Em 2023, a vida levou-a até França. Uma decisão feita com ambição, mas também com resistência.
“Sempre acreditei que tudo o que faço deve servir o meu país.”

A frase resume o conflito silencioso de quem parte sem querer verdadeiramente sair. Porque emigrar, no seu caso, não foi uma fuga — foi um investimento.

Hoje vive em Paris, onde frequenta um mestrado em Gestão de Indústrias Culturais. Entre aulas, projectos e novas experiências, constrói conhecimento com um olhar claro: aprender para um dia devolver.

Descobrir Angola fora de Angola

Longe de casa, encontrou algo inesperado: fragmentos de Angola espalhados pelo mundo.

Nos corredores de museus, nas peças expostas, nas histórias guardadas, reconheceu traços da sua cultura. Como no Museu do Quai Branly – Jacques Chirac, onde viu reflectida uma identidade que atravessa fronteiras.

E percebeu que há muito por contar — e por resgatar.

Um sonho que nasce da responsabilidade

Mas é no futuro que o seu pensamento ganha mais força.

Cândida sonha com a criação de um centro cultural para crianças desfavorecidas em Angola. Um espaço onde o talento não seja limitado pela falta de oportunidades. Onde a arte possa ser caminho, sustento e liberdade.

“É um sonho grande… mas eu acredito que vai acontecer.”

Não é apenas um desejo. É um compromisso.

A cultura como caminho

Para Cândida, Angola tem tudo — menos investimento suficiente naquilo que já é seu: a cultura.
Acredita num país que valorize os seus artistas, que forme, que apoie, que transforme talento em futuro. Um país onde os jovens não precisem de sair para serem reconhecidos.

Porque a cultura, insiste, não é acessório. É base. É força. É desenvolvimento.

Entre a saudade e a certeza

Em Paris, a família é o seu porto seguro. É nela que encontra equilíbrio para continuar.
Mas há saudades que atravessam tudo: o calor humano, a música, os gestos simples do quotidiano angolano. Aquilo que não se explica — sente-se.

E, ainda assim, há uma certeza que permanece intacta: Vai voltar. “Angola é o meu país.” E quando voltar, não será a mesma. Virá com mais conhecimento, mais visão, mais ferramentas — pronta para contribuir.

“Sejam cultos para serem livres”

A mensagem que deixa aos mais jovens é simples, mas carregada de intenção:
“Sejam cultos para serem livres. Uma geração instruída não se deixa confundir. Não tenham medo de sonhar grande.”

Porque, no fundo, é isso que a define: alguém que saiu para aprender, mas que nunca deixou de pertencer.
E que acredita — com convicção — que o conhecimento só faz sentido quando encontra o caminho de volta a casa.

Centro de Articulação com a Diáspora (CAD).