Em Ouidah, Benin: ministro Téte António mergulha na espiritualidade Voudou dos ancestrais
O Ministro das Relações Exteriores Téte António visitou neste sábado, 04/07, na localidade de Ouidah, República do Benin, o complexo da rota dos escravos africanos traficados para as plantações da cana-de-açucar nas Américas.
No Memorial da história da escravatura, o Ministro prestou um minuto de silêncio como tributo e respeito à alma dos cerca de 20 milhões de negros traficados na chamada “Costa dos Escravos” que se estende da Nigéria ao Ganha para servir de mão de obra para a construção do Brasil, Estados Unidos da América, Jamaica, Haiti, São Domingos, entre outras paragens.
Téte António e delegação começaram por visitar o Templo de Píton de Ouidah, uma serpente sagrada e venerada como divindade, símbolo da fertilidade e prosperidade. O local combina história, cultura e espiritualidade atraindo turistas de várias partes do Mundo durante o Festival de Voudou que se realiza em janeiro de cada ano.
Num tour fortemente emocionante, o ministro passou pelo Forte de Ouidah, construído pelos portugueses, recuperado e transformado em museu histórico em 1964 onde se guardam registos e evidencias dos escravos africanos que foram levados para as Américas nos últimos 400 anos.
A visita do ministro Téte António compreendeu seis etapas com a passagem pela Praça Chacha onde os escravos eram leiloados e marcados, a Árvore do Esquecimento onde eram forçados a circular para esquecer as suas origens, a Casa Zomai onde eram mantidos antes de serem embarcados nos navios negreiros, o Memorial de Zoungbodji, um cemitério comum onde eram enterrados os escravos que morriam durante a jornada, a Árvore do Retorno que simboliza a esperança de retorno dos espíritos dos escravos e terminou na Porta do Não Retorno que era o ponto de partida para as Américas com uma visita ao barco negreiro.
O barco caravela, agora restaurado para preservar a memória da escravatura, cumpriu a sua ultima missão obedecendo a rota Benguela/Angola, Salvador da Baía/Brasil, Ouidah/Benin e deveria efectuar passagem, não concretizada, por Malembo em Cabinda/Angola.
Uma equipa multidisciplinar envolvendo historiadores, historiadores militares, arqueólogos, sociólogos e antropólogos beninenses em cooperação com a UNESCO, trabalhou na documentação de todo processo ocorrido a partir do Sec. XV com o Comércio Triangular Europa, África e América.
O historiador beninense Silveste EDIAKOTÓ que foi o guia do ministro Téte António, nesta passagem por Ouidah, explicou que a documentação passou pela reconstituição histórica, baptismos, resistências, mecanismos de defesa, tipos de vestuários e das culturas agrícolas e alimentares utilizados antes da chegada dos colonos.
Mais de sete mil nomes e ocorrências já foram documentados apesar do Forte ter sido incendiado antes da saída dos portugueses. Escavações arqueológicas feitas no local apresentam vestígios de vários cemitérios de ossadas de escravos e barcos negreiros que o tempo não apagou.
Os escravos capturados e levados da Costa Ocidental eram maioritariamente compostos por indivíduos da etnia Yorubá (homens, mulheres e crianças) que habitam as regiões dos Camarões, Nigéria, Benin, Togo e Ghana.
Em Ouidah, Téte António encontrou nomes seculares que ainda resistem ao tempo como os das Famílias Da Costa, Dos Santos, Rafael, Da Sylva, entre outros.
Em 1996, o governo do Benin reconheceu oficialmente o Voudou como religião nacional, destacando sua importância espiritual baseado no percurso da história do tráfico de escravos e seu impacto na cultura e sociedade beninense.
A filosofia Voudou é uma parte integral da cultura e espiritualidade beninense, com mais de 40% da população praticando a religião abertamente, e muitos outros incorporando seus elementos em suas práticas diárias.
A importância do Voudou, segundo o responsável do Templo Píton em Ouidah, pode ser vista na perspectiva da conexão com os ancestrais onde enfatiza a sua veneração, acreditando que eles continuam a influenciar a vida dos vivos e devem ser honrados e apaziguados através de rituais e oferendas; Da harmonia com a natureza fazendo a ponte entre o mundo físico e espiritual (trovão, mar e terra); Da identidade cultural como fonte de orgulho, história e tradições; No plano da saúde e bem-estar com os seus sacerdotes a garantirem cura e orientação espiritual;
Do turismo e economia por via da atracção turística, com festivais e cerimónias.
A localidade de Ouidah, transformou-se num centro de peregrinação dos afrodescendentes idos do Haiti, Jamaica, Brasil e dos Estados Unidos da América dando corpo ao processo de integração dos afrodescendentes.
Em resumo o Voudou é mais do que uma religião. É uma forma de vida nascida das longas noites de escuridão, do escravagismo, de místicas, de suor e do corpo marcado pela brasa de ferro que permeia a cultura, a arte e a espiritualidade beninense.











