Jennifer Melissa Coelho afirma-se na Turquia e quer regressar a Angola
Natural de Luanda, do município de Cacuaco, Jennifer Melissa Carrera Coelho, de 27 anos, é uma das vozes mais activas da comunidade estudantil angolana na Turquia. Pesquisadora académica, vice-presidente da Associação dos Estudantes Angolanos na Turquia e mestranda em Relações Internacionais e Segurança de Estado na Universidade Hitit, Jennifer constrói, a vários milhares de quilómetros de Angola, um percurso assinalável no domínio da diplomacia, da segurança e da resolução de conflitos. Tudo com um objectivo claro: regressar e contribuir para o desenvolvimento do país.
Uma trajectória moldada pela curiosidade e pela determinação
O percurso académico de Jennifer começou formalmente em 2017, quando ingressou no Instituto Superior de Ciências Sociais e Relações Internacionais — o CIS — em Luanda. Aí concluiu a licenciatura em Relações Internacionais no final de 2021, com a firme convicção de que parar nesse grau nunca faria parte dos seus planos.
“Tendo em conta que parar na licenciatura nunca foi a minha meta, em 2023 surgiu a oportunidade de dar continuidade ao meu trajecto académico, mas cá na Turquia. Deixando o trabalho e a família, abracei essa oportunidade e cá estou hoje, no último ano de mestrado em Relações Internacionais e Segurança de Estado na Universidade Hitit”, conta.
A motivação para sair de Angola prendeu-se com a busca de conhecimento e com a escassez de oportunidades na sua área de especialidade. “Saí de Angola movida pela busca de conhecimento e ampliação de horizontes ligados à minha área de formação, a fim de contribuir para o meu crescimento profissional. Por outro lado, tendo em conta que em Angola ainda há uma escassez de oportunidades relacionadas à minha especialidade, que é a segurança de Estado, esta foi uma óptima oportunidade para dar mais um passo rumo ao meu sonho de ser PhD”, explica.
Da diplomacia à segurança de Estado: uma paixão que nasceu nas aulas
A escolha das Relações Internacionais não foi casual. Desde cedo, Jennifer sentiu uma curiosidade intensa sobre a forma como os Estados se relacionam e se inserem no sistema internacional. Foi ao longo da licenciatura que essa curiosidade se transformou numa vocação mais precisa: a diplomacia como instrumento de segurança.
“Para a licenciatura, escolhi o curso de Relações Internacionais porque sempre tive muita curiosidade de saber como os Estados se relacionam. E ao longo da licenciatura despertei um enorme interesse sobre diplomacia como ferramenta de segurança, tanto que para o mestrado decidi especializar-me em segurança de Estado. A minha tese gira em torno daquilo que é a diplomacia como ferramenta de segurança de um Estado”, esclarece.
A sua investigação académica estende-se a outros domínios igualmente sensíveis: a resolução de conflitos africanos, os estudos de inteligência e o contraterrorismo. Temas que, segundo Jennifer, respondem a uma necessidade real e urgente para o continente africano.
“Quero contribuir no desenvolvimento de conhecimentos que dêem respostas às instabilidades que ainda assolam a África, bem como identificar mecanismos que ajudem a contorná-las. Ao longo das minhas pesquisas, noto que nem sempre o uso da força é o melhor mecanismo para resolver muitos desses conflitos”, afirma.
Desde Agosto de 2025, Jennifer ocupa o cargo de vice-presidente da Associação dos Estudantes Angolanos na Turquia, uma estrutura que visa aproximar e integrar os estudantes angolanos no país, apoiando em especial os recém-chegados no processo de adaptação.
A associação acompanha actualmente 72 estudantes e os dados recolhidos no censo realizado este ano revelam desafios concretos: 44% dos estudantes enfrentam dificuldades no processo de aprendizagem da língua turca, enquanto 20% lidam com dificuldades de adaptação cultural.
O papel da associação vai além do acompanhamento interno.
“Pelo facto de termos contacto directo com os estudantes, a nossa direcção tem sido uma ponte entre a comunidade estudantil angolana e a embaixada de Angola na Turquia. Essa cooperação tem sido fundamental para fortalecer o acompanhamento dos estudantes, bem como para fortificar o sentimento de proximidade com Angola, mesmo não estando no nosso território”, sublinha Jennifer.
O desafio da língua turca e a conquista do C1
Aprender o turco foi, reconhece Jennifer, um dos maiores desafios que enfrentou desde que chegou à Turquia. Uma língua profundamente diferente de tudo o que conhecia — e que exige muito mais do que a memorização de vocabulário.
“O meu processo de aprendizagem da língua turca foi sem dúvida um dos maiores desafios a enfrentar até agora. Foi muito difícil começar a comunicar noutro idioma, o qual é tão diferente dos outros que tenho domínio. Não é só aprender palavras, é também ter contacto e entender a questão cultural e social. O meu certificado de nível C1 em turco representa muito esforço e dedicação”, revela.
Congressos, publicações e a crença no papel da juventude
O envolvimento de Jennifer com o debate público vai além da investigação académica. Durante a sua estadia na Turquia, participou em congressos e seminários, com especial destaque para o Congresso sobre Participação Activa da Juventude na Democracia, onde a reflexão sobre o papel das novas gerações na transformação social ganhou uma dimensão mais profunda.
“Naquele congresso percebi que nós, os jovens, fazemos parte do presente, não simplesmente do futuro. Temos um papel importante na transformação da sociedade, bem como no engajamento democrático de um país”, afirma.
Em setembro de 2025, Jennifer publicou um artigo na quarta edição da revista “Her Boydan”, uma publicação dedicada a estudantes internacionais. O texto propõe uma análise da obra de Sun Tzu, “A Arte de Guerra”, aplicada aos estudos de inteligência.
“Nessa análise conseguimos perceber a importância dos serviços de inteligência, bem como identificar mecanismos para contornar as questões de segurança que o sistema internacional enfrenta”, explica.
Conciliar o mestrado, a investigação e a associação
Gerir em simultâneo as exigências do mestrado, a investigação e as responsabilidades associativas não é tarefa simples. Jennifer reconhece o desafio, mas sublinha o valor do aprendizado que daí resulta.
“Neste último ano, conciliar o mestrado às investigações e à associação tem sido desafiante, porém uma experiência de bastante aprendizado e de crescimento profissional e pessoal.
Procuro manter a organização, ter uma lista de prioridades e manter o compromisso que assumi sem perder o foco daquilo que me trouxe cá: a conclusão do meu mestrado”, conta.
Angola no horizonte: potencial e desafios pela frente
Apesar da distância física, Angola continua bem presente no dia-a-dia de Jennifer. Acompanha a realidade do país através dos meios de comunicação social, e fá-lo agora com uma perspectiva mais ampla, moldada pela experiência internacional.
“Vejo Angola como um país com um enorme potencial, porém ainda enfrentamos alguns desafios. Esses desafios podem ser ultrapassados com a produção de conhecimento, com a participação activa da juventude e com soluções que estejam de acordo com a nossa realidade”, defende.
No plano da segurança internacional, Jennifer identifica os conflitos, as ameaças transnacionais, as crises socioeconómicas e os problemas ambientais como os grandes desafios do sistema — e alerta para o facto de África e Angola não estarem isentas dessas pressões. Os conhecimentos adquiridos podem, na sua perspectiva, traduzir-se em contributos práticos: “Podem apoiar nas áreas de análise de riscos e ameaças, na formulação de estratégias de cooperação internacional, bem como no fortalecimento da diplomacia”, refere.
O regresso é uma certeza. As saudades, também.
A jovem não tem dúvidas sobre o futuro: quer voltar a Angola. “Angola faz parte da minha identidade, é o território pelo qual tenho sentimento de pertença. Tenho pretensões de voltar e também porque quero contribuir para o desenvolvimento do país”, afirma.
Enquanto esse dia não chega, as saudades fazem-se sentir com intensidade. “Estando aqui, sinto falta da minha família, tenho muitas saudades da minha mãe e dos meus irmãos, tenho saudades da nossa comida, tenho saudades de sentir a nossa energia e também de sentir que estou num lugar onde realmente pertenço”, confessa.
Uma mensagem à juventude angolana
Para terminar, Jennifer deixa uma palavra de encorajamento a todos os jovens que, como ela, sonham com uma carreira internacional sem deixar de pertencer a Angola.
“Não deixem de sonhar, acreditem no vosso potencial, invistam no conhecimento onde quer que estejam, porque as oportunidades aparecem tanto fora quanto dentro do nosso país. E não só isso: o desenvolvimento do nosso país depende também de nós”, conclui.
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