Carlos Bento constrói carreira na indústria química turca com o olhar voltado para Angola
Natural de Malanje, Carlos da Silva Bento encontrou na educação e na ciência o caminho para transformar a sua vida. Aos 28 anos, o engenheiro químico angolano construiu uma carreira sólida na Turquia, onde concluiu a licenciatura e o mestrado com bolsa do Governo turco e integra actualmente importantes indústrias do sector químico. Apesar da afirmação profissional no estrangeiro, mantém a convicção de que o conhecimento adquirido deve, um dia, contribuir para o desenvolvimento industrial de Angola.
A história de Carlos começa em Malanje, província onde viveu grande parte da sua infância e juventude. Foi ali que frequentou o ensino primário na Escola Nossa Senhora de Fátima da Maxinde e, mais tarde, o ensino médio no então Liceu Eiffel, instituição que recorda como determinante para a sua formação.
Em 2016 concluiu o ensino médio e, como muitos jovens provenientes do interior do país, mudou-se para Luanda para prosseguir os estudos. No ano seguinte ingressou no Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC), onde iniciou a licenciatura em Engenharia Química.
“Foi uma grande escola”, recorda. Mais do que os conhecimentos académicos, a experiência permitiu-lhe contactar com realidades distintas e compreender melhor a diversidade social e cultural de Angola.
A decisão que mudou tudo
No final de 2018, Carlos tomou uma das decisões mais difíceis da sua vida: deixar Angola para recomeçar num país completamente diferente.
A oportunidade surgiu através de uma bolsa de mérito do Governo da Turquia, da qual teve conhecimento por intermédio de um amigo. Apesar das dúvidas iniciais, decidiu candidatar-se. A resposta positiva chegou após o processo de selecção e obrigou-o a escolher entre continuar a vida que já havia iniciado em Angola ou partir para um novo desafio.
“Larguei tudo e vim para cá recomeçar”, resume.
A mudança acabou por marcar profundamente o seu percurso pessoal e profissional.
Da medicina à engenharia química
Curiosamente, a primeira paixão académica de Carlos não era a engenharia, mas sim a medicina. Durante o ensino médio destacou-se em Biologia e acreditava que seguiria uma carreira médica. Contudo, após ser admitido tanto em Medicina como em Engenharia, percebeu que a primeira opção não correspondia verdadeiramente ao seu perfil.
A curiosidade pela tecnologia, pelos processos industriais e pela inovação acabaria por falar mais alto. Ao aprofundar os conhecimentos sobre Engenharia Química, encontrou a área com a qual se identificava: a transformação de matérias-primas em produtos de valor acrescentado.
“Não tinha outra opção. Era simplesmente Engenharia Química”, afirma.
Hoje possui licenciatura e mestrado na área e garante não se arrepender da escolha.
Formação internacional e crescimento profissional
Na Turquia, Carlos concluiu a sua formação superior na Universidade Ondokuz Mayıs (OMÜ) , uma das mais prestigiadas do país. A experiência académica permitiu-lhe trabalhar ao lado de investigadores e profissionais de referência, contacto que considera fundamental para a sua evolução.
Segundo o engenheiro, a passagem pelo ensino superior turco transformou não apenas as suas competências técnicas, mas também a sua forma de encarar a vida e o trabalho.
“Não seria a pessoa que sou hoje se essa oportunidade não tivesse acontecido”, reconhece.
Os desafios da indústria química
Depois da universidade, Carlos iniciou a sua carreira em importantes empresas do sector químico turco, entre elas a Toros Tarim e a Poli Global. A transição da teoria para a prática revelou-se um dos maiores desafios da sua trajectória.
“Na sala de aula não temos noção da responsabilidade que esta profissão exige”, explica.
O ambiente industrial exige elevados níveis de disciplina, responsabilidade e rigor, sobretudo quando se trabalha com substâncias potencialmente perigosas. Além das exigências técnicas, enfrentou ainda a barreira linguística e o desafio de liderar equipas compostas por trabalhadores com mais experiência e maior conhecimento da realidade local.
“Por vezes sentia o peso de ser estrangeiro e ter de coordenar pessoas que trabalhavam há mais tempo do que eu”, admite.
Ainda assim, destaca o apoio recebido das equipas com quem trabalhou e considera que os primeiros meses de adaptação foram determinantes para o sucesso da integração.
Entre ácidos, resinas e energia
Ao longo da sua carreira, Carlos participou em operações industriais ligadas à produção de formaldeído, resinas, ácido sulfúrico e ácido fosfórico. Ver de perto processos industriais que antes conhecia apenas dos livros e laboratórios representou, nas suas palavras, a concretização de um sonho antigo.
Uma das experiências que mais o impressionou foi observar unidades industriais que aproveitam o calor gerado nos processos químicos para produzir energia eléctrica. A realidade levou-o a imaginar possibilidades semelhantes para Angola.
“Além de produzirmos produtos químicos importantes para as nossas indústrias, também poderíamos produzir energia”, observa.
Ciência, inovação e o futuro de Angola
Paralelamente à actividade profissional, Carlos tem mantido uma forte ligação à investigação científica. Participou em grupos de pesquisa, colaborou na produção de artigos científicos e integrou projectos relacionados com energias renováveis, biodiesel e biopolímeros. Também participou no Teknofest, considerado um dos maiores eventos de ciência e tecnologia da Turquia.
Estas experiências consolidaram a sua convicção de que a ciência e a inovação desempenham um papel central no desenvolvimento económico dos países. Na sua visão, o crescimento industrial de Angola dependerá da capacidade de investir no conhecimento e na formação de quadros qualificados.
“A Turquia tornou-se uma referência internacional porque investiu fortemente em ciência e tecnologia. Se queremos um sector industrial robusto em Angola, temos de investir muito em conhecimento”, defende.
Partilhar conhecimento para transformar África
Para além da actividade industrial e científica, Carlos é membro fundador de iniciativas como a Africa Science and Technology e integra a Associação dos Estudantes Angolanos na Turquia (AEAT). A preocupação com a capacitação da juventude africana nasceu, segundo ele, da própria experiência académica e profissional.
“A ciência é o motor para o desenvolvimento de um país. É impossível um país desenvolver-se sem apostar em ciência”, afirma com convicção.
À medida que foi aprofundando os seus conhecimentos, foi também percebendo que o saber não pode ficar guardado. Essa convicção deu origem à Africa Science and Technology, uma plataforma criada precisamente para democratizar o acesso ao conhecimento científico.
“O conhecimento não pode ser engavetado. Deve ser partilhado para que outros possam absorvê-lo e criar novas coisas. A inovação vem daí”, sublinha.
Já a AEAT surgiu da necessidade de reunir os estudantes angolanos na Turquia numa plataforma comum, onde pudessem debater não apenas as suas vivências no exterior, mas também as questões que dizem respeito ao futuro de Angola.
“É uma honra poder fazer parte desta associação, porque temos jovens incríveis, pessoas brilhantes, estudantes que são também empreendedores. Estar ao lado deles faz com que eu não fique parado”, refere.
Da investigação à protecção ambiental
O envolvimento de Carlos nas causas comunitárias estendeu-se ainda à área ambiental. Ao saber da existência da EcoAngola, uma comunidade de jovens angolanos dedicada à protecção do meio ambiente, não hesitou em juntar-se ao projecto.
A ligação foi natural: os seus grupos de pesquisa sempre estiveram orientados para as energias renováveis e os biopolímeros, tornando a transição para a vertente ambiental e social uma consequência directa do seu percurso científico.
“Quis juntar-me à EcoAngola para partilhar um pouco do que sabia, mas também para absorver o muito que elas tinham para dar”, reconhece.
Adaptação, autonomia e laços construídos longe de casa
Quando chegou à Turquia, Carlos foi o primeiro e único angolano na sua cidade. O clima, a cultura, a língua e a religião eram completamente diferentes de tudo o que conhecia. A solidão inicial foi real, mas foi também um motor de superação.
“No princípio foi muito difícil. Mas graças a Deus, e com a ajuda de muita gente, cá estou e está tudo bem”, resume.
Hoje fala português, inglês e turco, e considera que as pessoas que encontrou na Turquia são, de certa forma, a sua família. Profissionalmente, a evolução foi notória: começou na Poli Global como engenheiro de processos e actualmente integra a área de Pesquisa e Desenvolvimento, o que lhe confere uma autonomia económica e profissional que reconhece com gratidão.
Angola sempre presente
Apesar da distância, Carlos acompanha de perto tudo o que acontece em Angola — pelas redes sociais, pelos jornais, pelos amigos e familiares. E não esconde que as notícias provocam sentimentos contraditórios.
“Há assuntos que nos enchem de orgulho e há coisas que claramente nos entristecem. Quando vejo algo e penso: por que é que não poderia ser diferente?”, confessa.
Na sua visão, a transformação de Angola passa inevitavelmente pelo sector industrial, pela aposta na ciência e por uma educação que forme mentes capazes de contribuir para o desenvolvimento do país.
“Tem muitos jovens com conhecimento que só precisam de oportunidade e, infelizmente, não conseguem encontrá-la. É necessário um investimento real, com objectivos claros, onde a juventude possa desempenhar um papel fundamental”, defende.
Um olhar para o futuro
Embora tenha construído uma carreira promissora na Turquia, Carlos Bento continua profundamente ligado ao seu país de origem. O engenheiro acredita que a experiência acumulada — nos laboratórios, nas indústrias, nos grupos de investigação e nas iniciativas associativas — poderá, no futuro, ser colocada ao serviço do desenvolvimento industrial angolano.
“Se tiver uma oportunidade clara onde possa aplicar estes conhecimentos, não há razão para não o fazer”, afirma.
A mensagem para os jovens angolanos
Para terminar, Carlos deixa uma mensagem de reflexão à juventude angolana — e a todos os compatriotas.
“A minha mensagem seria que precisamos de reflectir sobre o país que temos. Se estamos felizes com a situação do país, seja ela económica, política ou social, precisamos todos de parar e pensar na juventude — se está a desempenhar o seu papel ou não. E se não está, temos que encontrar as causas e as soluções.”
Para o engenheiro, a chave está na capacidade colectiva de imaginar e construir um futuro diferente.
“Temos de pensar no país que queremos. E com base nessa reflexão, movermo-nos num único caminho, com um único objectivo: transformar Angola de bom para melhor”, conclui.
De Malanje para a indústria química internacional, Carlos Bento representa uma geração de jovens angolanos que vê na educação não apenas uma oportunidade pessoal, mas também uma ferramenta para construir um futuro melhor para Angola.
Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)










