26 de July, 2026
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Augusta Ermelinda afirma-se no Brasil, mas quer regressar para ajudar a transformar a educação em Angola

Reencontrar o marido foi o primeiro motivo que levou Augusta Ermelinda Abel Mendes ao Brasil. O segundo surgiu com uma bolsa de mestrado que lhe abriu as portas da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Hoje, investiga a educação sexual no contexto escolar angolano e continua a alimentar um objectivo: regressar a Angola para contribuir para a transformação do sistema educativo.

Natural da província do Moxico, Augusta Ermelinda Abel Mendes, de 28 anos, concluiu o ensino médio em Ciências Físicas e Biológicas, na Escola João Beirão, e licenciou-se em Pedagogia, na especialidade de Gestão e Inspecção Escolar, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), no Kilamba. Actualmente frequenta o mestrado em Educação na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), ao abrigo de uma bolsa do Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras (GCUB), programa que promove a mobilidade académica de estudantes internacionais.

Duas razões para atravessar o Atlântico

A decisão de sair de Angola teve duas motivações bem definidas. “A primeira foi encontrar o meu esposo, porque ele já estava aqui há um ano, a frequentar o mestrado em Comunicação Social na Universidade Federal de Goiás”, conta.

A segunda surgiu através da oportunidade de prosseguir os estudos. Foi o próprio marido quem lhe enviou o edital da bolsa da GCUB, depois de também ele ter beneficiado do mesmo programa. Augusta candidatou-se, apresentou um projecto de investigação e acabou por ser seleccionada para a UEMS.

A adaptação ao Brasil aconteceu de forma gradual

“As experiências têm sido muito boas. Fui muito bem recebida e muito bem acolhida”, afirma, destacando o ambiente académico e a disponibilidade de professores e colegas.

Longe da família, encontrou na comunidade angolana residente no Brasil um importante ponto de apoio.

“Hoje temos uma comunidade angolana que, de tanta convivência e companheirismo, acabou por se tornar família.”
Actualmente, é a única estudante angolana no seu programa de mestrado, convivendo diariamente com colegas brasileiros, moçambicanos e de outras nacionalidades.

Da experiência nas escolas à investigação científica

Antes de chegar ao Brasil, Augusta construiu uma sólida experiência profissional em Angola como professora, coordenadora de turma e responsável por actividades extracurriculares.
Foi precisamente esse contacto directo com a realidade das escolas que despertou muitas das questões que hoje procura responder através da investigação.

Durante o estágio docente realizado na UEMS, voltou à sala de aula, desta vez acompanhando estudantes do terceiro ano da licenciatura em Pedagogia, uma experiência que reforçou a convicção de que ensinar e investigar são actividades complementares.

Uma investigação inspirada pela realidade angolana

A investigação que desenvolve no mestrado centra-se na sexualidade na adolescência no contexto escolar angolano.
O interesse pelo tema nasceu ainda durante a licenciatura, quando desenvolveu, juntamente com a colega Joaquina Nalengue Quambi Kambumba, um estudo sobre práticas sexuais e utilização de métodos contraceptivos entre adolescentes.

“O que me motivou foi dar continuidade ao trabalho que apresentei na licenciatura. Em conversa com a minha orientadora percebemos que havia necessidade de aprofundar este tema”, explica.

No mestrado, decidiu orientar a investigação para a disciplina de Educação Moral e Cívica, procurando compreender de que forma os conteúdos relacionados com a sexualidade podem contribuir para prevenir a gravidez precoce e as infecções sexualmente transmissíveis.

A escolha não surgiu por acaso

“Mesmo trabalhando temas sobre sexualidade e gravidez precoce dentro da sala de aula, continuamos a registar índices muito elevados de gravidez na adolescência. Isso levou-me a querer compreender melhor esta realidade.”

Mais do que estudar o problema, Augusta quer contribuir para soluções concretas. Entre os projectos que pretende desenvolver está a criação de uma cartilha educativa, em formato de banda desenhada, destinada aos adolescentes angolanos e centrada no direito de cada jovem decidir sobre o próprio corpo.

A iniciativa pretende sensibilizar para práticas tradicionais que ainda persistem em algumas comunidades e que favorecem o casamento e a maternidade precoces.

“Não podemos tapar esta realidade com a peneira e fingir que ela não existe”, sublinha. Mais do que um trabalho académico, Augusta espera que a cartilha possa chegar às escolas angolanas e tornar-se uma ferramenta de sensibilização para adolescentes, professores e famílias.

Angola sempre presente

Embora viva actualmente no Brasil, Augusta faz questão de manter Angola presente no seu quotidiano.
Na universidade é frequentemente convidada pela Direcção de Relações Internacionais para apresentar aspectos da cultura angolana a estudantes brasileiros e estrangeiros.

Fala da gastronomia, da música, da dança, das tradições e da diversidade cultural do país, transformando cada encontro numa oportunidade para aproximar povos.

“O intercâmbio e essa troca de experiências têm sido muito, muito bons”, afirma.

Essa ligação a Angola manifesta-se também através de uma paixão antiga: as tranças.

Desde criança aprendeu a cuidar do próprio cabelo e a fazer tranças a familiares, amigas e vizinhas. Nos tempos livres, continua a dedicar-se a esta actividade, utilizando postiços e produtos angolanos, respondendo às necessidades de muitas mulheres africanas residentes no Brasil.

Mais do que uma fonte complementar de rendimento, considera esta actividade uma forma de preservar e divulgar uma tradição profundamente enraizada na cultura angolana.

Entre a dissertação e o futuro

Conciliar a investigação científica com a vida familiar exige disciplina. Enquanto conclui a dissertação, Augusta continua a apoiar, mesmo à distância, antigas colegas professoras em Angola, ajudando-as na preparação de planos de aula e noutras tarefas pedagógicas.

Apesar da distância, acompanha diariamente a actualidade angolana através dos meios de comunicação social e das redes sociais e acredita que o conhecimento adquirido no Brasil deverá ser colocado ao serviço do desenvolvimento nacional.

Defende uma educação mais inclusiva, melhores condições para os professores e um sistema capaz de chegar às populações mais vulneráveis.

Entre os projectos futuros estão a publicação da dissertação em livro, a produção de artigos científicos, a continuação dos estudos ao nível do doutoramento e a concretização da cartilha educativa destinada aos adolescentes.

Mas o objectivo maior permanece inalterado. “Pretendo regressar a Angola. Quero colocar os conhecimentos que adquiri ao serviço do desenvolvimento da educação no nosso país.”

Longe de casa, sente saudades da família, dos amigos, das actividades da Igreja Novo Apostólica e da hospitalidade que caracteriza o povo angolano. Sente falta das conversas entre vizinhos, das festas tradicionais e da gastronomia que, garante, continua sem encontrar igual no Brasil.

Uma mensagem aos jovens angolanos

Para quem sonha estudar no estrangeiro, a mensagem de Augusta é directa: “Vá à luta, se esforce, se inscreva, se candidate. Muitos dos editais que são disponibilizados não cobram valor algum para se candidatar, então não perde nada.”

E remata com um apelo à responsabilidade colectiva: “Ninguém vai realizar os seus sonhos por você — precisamos dar as mãos para desenvolver aquela que é a tua, é a minha, é a nossa Angola.”

Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)