26 de September, 2026
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Desenvolvimento de Angola passa por partilha de conhecimentos, defende engenheiro Talismã Cassoma

Talismã Cassoma Manuel é um jovem angolano formado em Sistemas Embarcados e actualmente doutorando em Smart Agriculture, na Universidade Abdelmalek Essaâdi-FPL, em Marrocos.

Encontrou na ciência e na tecnologia ferramentas para construir o seu percurso académico e profissional fora de Angola.

Em Marrocos, onde reside, desenvolve investigação ligada à Inteligência Artificial aplicada à agricultura e defende a partilha de conhecimentos como uma das formas de contribuir para o desenvolvimento de Angola.

Natural do município do Cazenga, em Luanda, Talismã Cassoma Manuel construiu desde cedo uma relação próxima com os estudos e com a procura pelo conhecimento.

A sua história académica, conta, começou a ganhar contornos mais sólidos ainda durante a infância, muito por influência do pai, Luís Domingos, que acompanhou de perto o seu percurso escolar e chegou a dar-lhe aulas de apoio.

Na altura, Talismã admite que não compreendia totalmente a dimensão daquele acompanhamento.

Com o passar dos anos, porém, percebeu que aquela orientação foi determinante para o seu desempenho académico e para o desenvolvimento de uma característica que considera fundamental na sua formação: o pensamento científico.

“Fui desenvolvendo aquilo que considero hoje uma das características mais importantes da minha formação, que é o pensamento científico e a vontade de compreender como as coisas funcionam”, explica.

Da escola no Bengo para a Faculdade de Engenharia

Talismã concluiu o ensino médio, em 2013, na escola Eiffel do Bengo.

O desempenho académico abriu-lhe as portas para uma bolsa de estudos por excelência, oportunidade que viria a mudar o rumo da sua formação.

Enquanto aguardava a conclusão dos procedimentos relacionados com a bolsa, ingressou, em 2014, na Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto, em Luanda.

Desde cedo, a informática e a electrónica despertaram-lhe particular interesse.

A curiosidade em compreender o funcionamento de máquinas, sistemas e tecnologias acabou por orientar as suas escolhas académicas e profissionais.

Mais do que uma área profissional, a formação tornou-se, para Talismã, parte de uma filosofia pessoal baseada na aprendizagem contínua e no aperfeiçoamento.

Reconhece que a principal motivação para continuar a estudar é a procura contínua pelo autodesenvolvimento, uma filosofia que diz ter herdado do seu pai: procurar ser e fazer melhor cada dia.

Da engenharia à robótica e aos drones

O mestrado em Eletrónica Embarcada e Sistemas de Telecomunicações pela Universidade Ibn Tofail-FSK, em 2022, proporcionou-lhe uma base técnica que lhe permitiu participar em diferentes projectos de engenharia e ampliar o campo de aplicação dos seus conhecimentos.

Ao longo do percurso profissional, esteve ligado a projectos que vão desde o desenvolvimento de aplicações para smartphones, para os sistemas Android e iOS, até trabalhos relacionados com robótica e drones.

A partilha desses projectos tornou-se também uma forma de documentar a sua evolução profissional e de aproximar outros interessados da área tecnológica.

Talismã utiliza o LinkedIn para divulgar parte dos trabalhos que desenvolve e dos conhecimentos que vai adquirindo.

A sua investigação está centrada precisamente na aplicação da Inteligência Artificial ao sector agrícola, procurando explorar o potencial da tecnologia para responder a desafios concretos.

Uma das experiências que considera relevante ocorreu em 2024, quando trabalhou com uma empresa italiana na arquitectura e treino de um modelo de Inteligência Artificial.

O projecto permitiu-lhe aplicar conhecimentos científicos e técnicos adquiridos durante o doutoramento, desde a definição da metodologia até à entrega do modelo final.

Para Talismã, experiências desta natureza contribuem para consolidar competências e aproximar a investigação académica das necessidades reais do mercado.

Marrocos como espaço de adaptação e crescimento

A experiência de viver em Marrocos tem sido, segundo o investigador, marcada pela aprendizagem e pela adaptação. O país, diz, conquistou-o também pela riqueza cultural.

Embora reconheça diferenças significativas entre as culturas marroquina e angolana, Talismã encara essas diferenças como uma oportunidade de poder conhecer outras formas de viver.

No plano profissional, descreve o mercado marroquino como competitivo, mas considera que essa realidade também cria oportunidades para profissionais qualificados, sobretudo num país que tem vindo a apostar no desenvolvimento tecnológico e na inovação.

A ligação de Marrocos a grandes mercados internacionais, nomeadamente de países como França, Espanha e Canadá, contribui, na sua perspectiva, para elevar as exigências colocadas aos profissionais que actuam no sector tecnológico.

A experiência no país resume-se, assim, numa combinação de “adaptação, aprendizagem e crescimento”, tanto no plano profissional como pessoal.

Comunidade angolana mantém ligação à pátria

Apesar da distância, Talismã mantém uma forte ligação a Angola e à comunidade angolana residente em Marrocos.

Segundo relata, a comunidade já foi maior, mas continua unida e encontra apoio em iniciativas promovidas pela Embaixada de Angola no Reino de Marrocos, que procura dinamizar actividades e fortalecer os laços entre os angolanos residentes no país.

Em casa, essa ligação à cultura angolana também é transmitida aos filhos. Juntamente com a esposa, procura manter vivas referências culturais através da música, da literatura e da dança.

É uma forma de fazer com que as novas gerações, mesmo crescendo fora de Angola, mantenham contacto com a cultura e as raízes familiares.

Conhecimento como contribuição para Angola

Apesar de reconhecer os desafios que Angola ainda enfrenta no domínio tecnológico, Talismã diz acompanhar com satisfação o surgimento de iniciativas protagonizadas por jovens angolanos.

Na sua perspectiva, a tecnologia constitui um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento das sociedades.

Considera, contudo, que continuam a ser necessários mais investimentos e maior maturidade na gestão de sistemas tecnológicos.

Entre as áreas que mais despertam o interesse da juventude angolana está a Inteligência Artificial, um campo que o investigador considera estratégico para o futuro.

É precisamente nesse domínio que pretende contribuir para Angola, sobretudo através da difusão de conhecimento.

“Conforme reconheceu, proporcionar aos jovens acesso ao conhecimento e às ferramentas tecnológicas significa criar condições para que possam desenvolver ideias, criar projectos e identificar novas oportunidades.

As competências adquiridas fora do país, defende, não devem ser encaradas apenas como uma conquista individual, mas também como um recurso que pode, no futuro, ser transformado em conhecimento e soluções práticas para Angola.

A saudade de Angola

Longe do país onde nasceu, há algo que a tecnologia não consegue substituir: a proximidade da família.

Quando questionado sobre aquilo de que mais sente falta em Angola, a resposta surge sem hesitação: os pais, os irmãos e demais membros da família.

“Estar longe de casa faz-nos valorizar ainda mais esses momentos simples de estar com as pessoas que amamos”, confessa.

A saudade, explica, está também relacionada com a convivência e com aquela sensação de estar em casa — sentimentos que se tornam ainda mais presentes para quem constrói a vida longe do país de origem.

Aos jovens angolanos, Talismã deixa uma mensagem assente na persistência, educação e na procura contínua pelo conhecimento.

Para o engenheiro e investigador, estudar não deve significar apenas acumular informação, mas procurar compreender profundamente aquilo que se aprende, pelo que acredita que o conhecimento é libertador e permite compreender melhor a vida, tomar melhores decisões, planear melhor o futuro e, consequentemente, viver melhor.

A trajectória de Talismã Cassoma Manuel, do Cazenga à investigação em Smart Agriculture, em Marrocos, é marcada por uma ideia que atravessa todo o seu percurso: aprender, aperfeiçoar-se e transformar o conhecimento adquirido numa ferramenta capaz de gerar novas oportunidades — para si e, sobretudo, para outros jovens angolanos.

Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)