10 de October, 2026
#A nossa diáspora #Capa

Analtina Paulo quer transformar experiência do Brasil em força para servir Angola

 

Analtina Maria Domingos Paulo deseja transformar experiências pessoais nos variados domínios em força para servir os outros, sobretudo Angola.

Uma jovem que deixou Angola em busca de formação, encontrou no caminho a maternidade, enfrentou a distância da família, perdeu a mãe e precisou reconstruir-se num país estrangeiro.

Em vez de permitir que essas experiências a afastassem dos seus objectivos, transformou-as em combustível para continuar.

Analtina pretende regressar a Angola depois de concluir a sua formação e colocar os conhecimentos adquiridos no exterior ao serviço da sociedade angolana.

Entre as suas principais aspirações está a possibilidade de contribuir para uma saúde mais humanizada e para a melhoria dos serviços prestados à população.

Para Analtina, a experiência adquirida na diáspora pode transformar-se numa ponte de regresso: uma oportunidade para levar conhecimento, experiência e novas ferramentas para Angola.

Formada em Biomedicina e profissional da área da saúde, a angolana assume hoje a presidência da Associação Académica Juvenil em São Paulo, onde trabalha para acolher, orientar e apoiar jovens angolanos que procuram no Brasil formação, oportunidades e um novo caminho.

Nascida em Luanda, no bairro do Palanca, e criada na zona do Golf II, junto à Igreja Católica da Sagrada Família, Analtina Maria Domingos Paulo construiu uma trajectória marcada desde cedo pelo contacto com a educação e com a área da saúde.

O seu percurso académico começou na Escola 615, no Palanca, tendo posteriormente frequentado a Escola Divina Providência.

Foi nesse período que o interesse pelas ciências começou a ganhar força, particularmente pela Química e pela Biologia.

Entre as figuras que mais influenciaram essa escolha, está o professor de Química Castelo Henrique, cuja forma de ensinar contribuiu para despertar em si o desejo de prosseguir uma formação superior ligada à área da saúde.

Mais tarde, frequentou o Colégio Ana Carina, no Golf II, onde continuou a aprofundar o contacto com as ciências.

Os professores de Biologia, Francisco de Andrade e Santiago Ebo, bem como o professor de Química, Fadi João Pedro são apontados como referências importantes na consolidação da sua vocação.

Inicialmente, o sonho era estudar Medicina. No entanto, a mudança para o Brasil, em Janeiro de 2014, colocou-a diante de novas possibilidades.

Foi nesse contexto que descobriu a Biomedicina, uma área abrangente que viria a escolher para a sua formação superior.

Segundo explica, essa é uma das áreas da saúde muito abrangente, por envolver a Biologia e a Medicina, com possibilidades de actuação no tratamento, prevenção e investigação de doenças.

Escolha profissional encontra raízes na família.

Filha de uma enfermeira obstetra e psicóloga, Analtina cresceu próxima do ambiente hospitalar e acompanhava a mãe no exercício da profissão.

Essa convivência despertou nela, ainda cedo, uma relação particular com a área da saúde e com a importância de cuidar do outro.

Formação construída entre a maternidade e a perda

A conquista do diploma, porém, esteve longe de ser um caminho simples.

Durante a formação superior, Analtina tornou-se mãe. Longe da família e num país diferente, precisou conciliar as responsabilidades da maternidade com as exigências da vida académica.

Quando já se encontrava na fase final da formação, enfrentou uma das experiências mais dolorosas da sua vida: a morte da mãe.

A perda poderia ter interrompido o percurso que vinha construindo, mas decidiu continuar.

A determinação encontrou força nos ensinamentos recebidos dos pais, sobretudo na importância atribuída à educação e à formação como instrumentos capazes de transformar vidas.

Concluir a formação, naquele contexto, representou mais do que alcançar um objectivo académico.

Foi também uma forma de honrar a memória da mãe e demonstrar que as dificuldades não precisavam definir o seu destino.

Da Biomedicina ao cuidado através da massoterapia

A sua trajectória profissional levou-a também para o campo da massoterapia, área que passou a integrar o seu percurso ligado à saúde e ao bem-estar.

Através do SENAC, procurou aprofundar conhecimentos e desenvolver competências na área, transformando a massoterapia numa das suas frentes de actuação profissional.

Actualmente, além de exercer a actividade, actua como treinadora na área da massoterapia e atende pessoas de diferentes nacionalidades, entre angolanos, brasileiros, nigerianos, haitianos e congoleses.

A diversidade das pessoas com quem trabalha reforçou uma característica que atravessa toda a sua trajectória: a capacidade de lidar com diferentes realidades e de transformar o conhecimento adquirido em serviço ao próximo.

Quando a experiência pessoal se transforma em missão colectiva

É, contudo, na liderança comunitária que Analtina assume hoje um dos seus maiores desafios.

À frente da Associação Académica Juvenil em São Paulo, passou a desempenhar um papel de referência no acolhimento e orientação de jovens angolanos que chegam ao Brasil em busca de formação e novas oportunidades.

A decisão de assumir esta responsabilidade nasceu também da própria experiência.

Durante o seu percurso como estudante no Brasil, conheceu de perto as dificuldades enfrentadas por quem chega a um novo país sem informação suficiente, sem uma rede de apoio consolidada e com inúmeras questões por resolver.

Agora, procura fazer pelos outros aquilo que gostaria de ter encontrado em determinados momentos da sua própria caminhada.

A associação reúne estudantes, jovens já formados e angolanos que projectam realizar a sua formação em São Paulo.

O trabalho passa pelo acolhimento e pela orientação em áreas como documentação, empregabilidade, moradia, integração e adaptação.

O principal objectivo na associação, é o acolhimento dos estudantes que pensam em fazer a sua formação em São Paulo e daqueles que já lá estão, dando-lhes o suporte necessário.

Mais do que uma estrutura associativa, Analtina pretende que a organização funcione como uma rede de apoio para os jovens angolanos.

A intenção é evitar que aqueles que chegam ao Brasil para estudar tenham de enfrentar sozinhos as dificuldades de adaptação e integração.

Longe de Angola, mas perto da comunidade

Viver longe do país de origem trouxe também desafios pessoais.

As diferenças culturais, linguísticas e climáticas fizeram parte do processo de adaptação ao Brasil.

Algumas expressões e palavras utilizadas no quotidiano brasileiro, por exemplo, exigiram um período de aprendizagem e adaptação.

Mas, com o tempo, a comunidade angolana passou a ocupar um lugar importante na sua vida.

A distância da família em Angola é compensada, em parte, pelas novas tecnologias.

Chamadas, mensagens e outras formas de comunicação permitem manter uma ligação constante com os familiares.

Ainda assim, sempre que tem oportunidade, procura regressar a Angola para reencontrar a família e recuperar a proximidade que a distância não consegue substituir.

Um olhar atento sobre Angola

Mesmo a viver no Brasil, Analtina mantém-se ligada à realidade angolana através dos canais oficiais de informação e do contacto permanente com familiares e amigos.

Na sua visão, Angola precisa de continuar a investir em áreas fundamentais para o desenvolvimento humano e social, com particular atenção para a educação, a saúde e a tecnologia.

A educação ocupa um lugar especial na sua perspectiva, precisamente porque esteve entre as razões que a levaram a procurar uma formação superior no exterior.

Na saúde, defende uma maior valorização dos profissionais e a necessidade de reforçar a componente humana no atendimento aos cidadãos.

Já a tecnologia, entende, pode funcionar como uma ferramenta transversal, aproximando a educação, a saúde e outros sectores estratégicos e contribuindo para uma melhor preparação dos profissionais.

Regressar para devolver ao país o conhecimento adquirido

Apesar dos anos vividos no Brasil e da vida profissional construída naquele país, Angola continua presente nos seus planos.

Analtina reafirma que pretende regressar ao país depois de concluir a sua formação e colocar os conhecimentos adquiridos no exterior ao serviço da sociedade angolana.

Reitera que entre as suas principais aspirações, está a possibilidade de contribuir para uma saúde mais humanizada e para a melhoria dos serviços prestados à população.

A sua história é, por isso, também uma história de resistência.

Uma jovem que deixou Angola em busca de formação, encontrou no caminho a maternidade, enfrentou a distância da família, perdeu a mãe e precisou reconstruir-se num país estrangeiro.

Em vez de permitir que essas experiências a afastassem dos seus objectivos, transformou-as em combustível para continuar.

Hoje, Analtina Paulo divide-se entre a saúde, a formação profissional e a liderança comunitária.

Em São Paulo, ela procura abrir caminhos para outros jovens angolanos, sobretudo para aqueles que chegam ao Brasil carregados de sonhos, mas também de dúvidas e incertezas.

A sua trajectória mostra que sair de Angola não significa necessariamente romper com o país.

Analtina não se cansa em dizer que a experiência adquirida na diáspora pode transformar-se numa ponte de regresso: uma oportunidade para levar conhecimento, experiência e novas ferramentas para Angola.

É nessa perspectiva que encara o seu percurso — não apenas como uma história individual de superação, mas como uma caminhada que pode servir de inspiração e apoio a uma nova geração de angolanos na diáspora.

Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)