Visita de Estado à Tanzânia: declarações à Imprensa
O Presidente da República de Angola, João Lourenço, e a Presidente da República Unida da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, fizeram declarações aos jornalistas, para destacar os aspectos que consideram mais relevantes das relações entre os respectivos países no actual estágio da sua cooperação.
Em resumo, o Presidente João Lourenço reiterou o convite feito em circunstâncias anteriores para que a Tanzânia se torne accionista da Refinaria do Lobito (em construção);
-assegurou à sua homóloga que Angola vai apoiar a candidatura da Tanzânia a membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
– manifestou o interesse em ver o Corredor do Lobito ser completado com uma ligação ao projecto TAZARA, a linha ferroviária que se estende da Tanzânia à Zâmbia, com o que o comboio uniria a costa atlântica (Lobito/Angola) à costa do Índico (Dar Es Salam/ Tanzânia).
TANZÂNIA ASSEGURA VOTO A JOSEFA SACKO PARA LIDERANÇA DA FAO
A Presidente da Tanzânia declarou publicamente esta quinta-feira em Dar Es Salam que o seu país vai apoiar a engenheira angolana Josefa Sacko, que se candidata ao cargo de Director Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A decisão foi anunciada no momento em que a estadista tanzaniana falava à imprensa hoje, no contexto da visita do Presidente de Angola à República da Tanzânia.
ÍNTEGRA DA DECLARAÇÃO DO PRESIDENTE JOÃO LOURENÇO EM DAR ES SALAAM | 29 Outubro 2026
“ Quero, publicamente, agradecer a forma como eu e a delegação que me acompanha fomos recebidos aqui, em solo tanzaniano, pelas autoridades e pelo povo tanzaniano, desde a nossa chegada a Dar Es Salaam, ontem.
Hoje, damos início àquela que é a minha primeira visita de Estado à Tanzânia, 47 anos depois de o Presidente António Agostinho Neto ter realizado a primeira visita de Estado de um estadista angolano à Tanzânia.
É evidente que, entre países irmãos que se querem bem, 47 anos de diferença entre uma visita e outra não fica bem. Então é isto que nós procuramos corrigir, dando sequência também às duas visitas que a Presidente Samia Hassan realizou em pouco tempo a Angola, uma das quais sendo também visita de Estado e, a outra, uma visita para testemunhar a homenagem que Angola fez ao Presidente Julius Nyerere, conferindo o seu nome a uma importante unidade hospitalar acabada de construir.
O Presidente Julius Nyerere foi um político, um estadista africano, que deu o melhor de si a favor da libertação dos povos africanos que, na altura, ainda se encontravam oprimidos, quer pelas potências coloniais, quer pelo regime do Apartheid da África do Sul.
Todos esses povos, que naquela altura se encontravam nesta condição, beneficiaram da hospitalidade da Tanzânia, que deu espaços para a instalação da direcção dos movimentos de libertação, campos de treino, acesso às escolas e universidades tanzanianas para cidadãos desses países, logística e, de uma forma geral, todo o apoio necessário para o desenvolvimento da luta de libertação, até que ela saísse vitoriosa sobre os regimes coloniais e o regime do Apartheid.
Os nossos movimentos, de Angola, Moçambique, do Zimbabwe e de outros países da África Austral beneficiaram desse apoio aqui na Tanzânia e foi a partir daqui que foi gizada toda a estratégia que levou ao derrube dos regimes coloniais e do sistema do Apartheid.
Angola depois deu continuidade, retribuiu o apoio que recebeu da Tanzânia, apoiando também outros povos, nomeadamente da Namíbia e da África do Sul que acabaram igualmente por conhecer a sua liberdade.
Essa fase passou e, daí em diante, a nossa obrigação, enquanto políticos e estadistas, é a de virarmos as nossas atenções para o desenvolvimento económico dos nossos países, para o bem-estar das nossas populações. E para conseguirmos isso, não podemos contar, de forma alguma, apenas com as nossas capacidades, quer materiais, financeiras ou mesmo de recursos humanos.
Por muito fortes que sejamos, por muito ricos que sejamos, nenhum dos nossos países está, sozinho, em condições de atingir esses dois grandes objectivos, o do desenvolvimento económico e o da criação das condições para o bem-estar social das nossas populações.
Isso só é possível no quadro do estabelecimento de fortes relações – não direi mais de amizade, está subentendido que ela existe, mas sobretudo relações de cooperação económica entre os nossos países.
É isso que infelizmente, às vezes, está em falta. Às vezes, os nossos países, por razões de diversa ordem, estabelecem essas mesmas relações de cooperação com países longínquos da Europa, da América, da Ásia…e deixamos para segundo plano os nossos próprios irmãos, os países africanos que têm sempre alguma coisa a oferecer, têm sempre alguma coisa a nos dar em benefício recíproco em que todos saem a ganhar.
É o caso das relações entre Angola e a Tanzânia.
Se nós aprofundarmos essas mesmas relações, com certeza que Angola vai ganhar bastante e, seguramente, a Tanzânia também vai ganhar bastante.
Ao longo dos anos, fomos assinando acordos de cooperação, memorandos de entendimento. Hoje mesmo assinámos alguns em diferentes domínios e certamente que, no futuro, continuaremos a fazê-lo. Isso para criar o quadro jurídico que vai facilitar a cooperação, não apenas institucional entre os dois governos, mas sobretudo a possibilidade do investimento privado tanzaniano em Angola e igualmente o investimento privado angolano na Tanzânia.
Daí a razão de, entre os acordos que assinámos, termos prestado atenção particular à necessidade de assinarmos o acordo que vai permitir a ligação aérea entre os nossos dois países, entre as nossas capitais ou entre diferentes cidades de Angola e da Tanzânia, para facilitar o fluxo de passageiros no geral, mas, em particular, dos homens de negócios que têm sempre a necessidade de deslocações rápidas mas importantes para estabelecerem parcerias, para instalarem as suas empresas no outro país, para venderem mercadorias, exportarem, enfim, para garantirem as trocas comerciais entre os nossos dois países.
Portanto, vamos estudar entre os nossos dois países qual das companhias é que vai avançar já para dar corpo a este acordo que acabámos de assinar, de mobilidade aérea entre os nossos dois países. Mas os nossos países precisam de estar ligados por via aérea, por via marítima.
A Tanzânia tem o grande porto de Dar Es Salaam; Angola tem, entre os diferentes portos, o da cidade do Lobito, que é o início de um outro módulo de transporte que é o transporte ferroviário; é o início do Caminho-de-Ferro de Benguela que vai dar corpo, pelo menos do lado angolano, ao muito falado Corredor do Lobito. Corredor esse que só terá sentido se conseguir efectivamente fazer a ligação ferroviária entre estas duas cidades, entre esses dois portos, do Lobito e de Dar Es Salaam, passando quer pela RDC, como também pela Zâmbia.
Estamos empenhados em tudo fazer pelo sucesso desse grande projecto, da ligação do Caminho-de-Ferro de Benguela ao Caminho- de Ferro da Tazara, como é conhecido o Caminho-de-Ferro que liga os dois países, a Tanzânia e a Zâmbia. A sua interconexão vai garantir a ligação dos dois extremos marítimos, um no Oceano Atlântico – o Porto do Lobito – e o outro no Oceano Índico, o Porto de Dar Es Salaam.
Vimos também o interesse e a importância de cooperarmos no ramo da indústria aeroespacial. Angola é detentora de um satélite, que chamamos ANGOSAT II, e queremos partilhar as capacidades desse satélite com outros países africanos, nomeadamente os países da nossa região da SADC. Portanto, vamos disponibilizar os serviços do ANGOSAT II à Tanzânia, para que possa utilizá-lo em benefícios do desenvolvimento da agricultura, da meteorologia, enfim, numa palavra, do desenvolvimento económico da Tanzânia.
Nos trabalhos desta manhã vimos também o interesse recíproco de cooperarmos nos domínios da educação, no domínio da saúde. A Presidente Samia acabou de referir agora a sua experiência e condição de Campeã para a Saúde Materno-Infantil. Nós estamos interessados em beneficiar dessa sua experiência, em particular, e da Tanzânia, de uma forma geral, para também alcançarmos a meta que a Tanzânia conseguiu já, a de garantir que não haja morte de parturiente, nem de recém-nascido.
Portanto, esta meta, afinal de contas é alcançável. Não é nenhuma quimera. É alcançável, dependendo do empenho das pessoas. E esse empenho tem muito a ver não apenas com investimento, em investimento material, unidades hospitalares, bons equipamentos, mas sobretudo, pelo que entendi, a experiência tanzaniana tem a ver com a formação do capital humano e da humanização dos serviços que são prestados à parturiente e, consequentemente, ao bebé.
Senhora Presidente, nós vamos trabalhar convosco e acreditamos que, em termos de saúde, ambos vamos ganhar. Nós temos carência de profissionais neste sector da saúde, Em termos de infra-estrutura, estamos a crescer a uma grande velocidade, mas não estamos a conseguir acompanhar com a mesma velocidade em termos de formação e admissão de profissionais de saúde.
Contamos com profissionais tanzanianos que possam, na base de um contrato, evidentemente, ir trabalhar em Angola, receber profissionais nossos aqui, nas universidades tanzanianas, dar formação de medicina, dar formação aos nossos profissionais que estão em Angola e, desta forma, elevarmos a qualidade dos nossos serviços médicos em Angola.
Nós estamos abertos a cooperar em todos os domínios que sejam identificados como importantes, não apenas pelos nossos respectivos governos, mas também pelos investidores de ambos os países. Investidores de Angola e da Tanzânia, que identifiquem negócios do seu interesse em Angola ou na Tanzânia, serão livres de poder desenvolvê-los.
Angola fez um esforço muito grande de desburocratizar o sector empresarial, fizemos um grande esforço no combate à corrupção. O investidor estrangeiro que quer investir em Angola não tem que ter receios de que vai ter que distribuir rendimentos indevidos não importa a quem. Isso entre um conjunto de outras medidas administrativas, e não só, tornaram o ambiente de negócios em Angola muito mais amigo do investimento privado, quer nacional, quer estrangeiro.
É evidente que – com essa parceria que nós queremos fazer, o que já estamos a fazer- queremos melhorar esta cooperação, que só pode ter sucesso num ambiente de paz e de segurança. Daí a razão da Presidente Samia ter dito que durante os trabalhos desta manhã, para além de termos abordado questões específicas da nossa relação bilateral Angola-Tanzânia, evidentemente que não deixamos de falar com alguma preocupação da situação de paz e segurança na nossa envolvente. E a nossa envolvente é a região da SADC, a região da África Austral, a região dos Grandes Lagos, onde qualquer um dos nossos países, quer Angola, quer a Tanzânia, estamos inseridos.
Qualquer instabilidade numa dessas regiões, evidentemente que afecta-nos, afugenta o investimento e, consequentemente, deixamos de alcançar o tal objectivo a que já me referi de incrementar o desenvolvimento económico e criar melhores condições de vida para as nossas populações.
Estamos preocupados com a situação no leste da RDC que, a nosso ver, parece-nos tender a piorar, infelizmente. Estamos preocupados com a situação no Sudão, que vive uma situação humanitária insuportável e que urge a acção de todos nós, no sentido de desencorajar a todos os Estados e organizações que estão a alimentar aquele conflito no Sudão.
Evidentemente, estamos também preocupados com o que se passa em países da região da SADC, nomeadamente o norte de Moçambique, concretamente a região de Cabo Delgado, e a situação de inconstitucionalidade que se vive hoje na Ilha de Madagáscar.
A SADC sempre foi uma região das mais estáveis, quer politicamente, quer socialmente no nosso continente, e estamos todos empenhados em trabalhar para que esses perigos que ameaçam a região da SADC sejam dissipados.
Infelizmente, não podemos nos ater apenas à situação aqui mais próxima, no nosso continente, mas temos que nos preocupar igualmente com o que se passa pelo mundo, porque hoje estamos num mundo cada vez mais globalizado. O que se passa num ponto do planeta, dependendo da sua gravidade, pode também afectar o resto do mundo. E é o que já está a acontecer com os conflitos entre a Rússia e a Ucrânia, o conflito no Médio Oriente que opõem israelitas e palestinianos, o conflito mais recente no Golfo Pérsico que encareceu a vida em todo o mundo.
Os preços do petróleo bruto aumentaram significativamente e, como é evidente, o preço dos refinados também, o preço dos fertilizantes que tem a ver com a produção de alimentos e todos os demais preços que estão a levar aquilo que estamos a assistir há alguns dias na Europa, em que as populações vieram à rua com os mais diferentes argumentos. Ora porque faltam casas, ora porque qualquer outra razão, mas no fundo, no fundo, resumindo, acaba por ser já uma das consequências do elevado custo de vida que a Europa e o resto do mundo começam a sentir devido aos conflitos a que acabei de me referir.
Nós vamos continuar a utilizar a nossa voz nos fóruns internacionais, no sentido de chamar a atenção para a necessidade de se pôr cobro, de se pôr fim, a esses conflitos, grandes ou pequenos, porque os pequenos também se podem rapidamente transformar em grandes conflitos que se agravam um pouco por todo o país e que levaram a situação que o mundo vive hoje.
Daí defendemos a necessidade da reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Acreditamos que a entrada de novos actores, de novos membros, como na condição de membros permanentes do Conselho de Segurança, membros que venham de África, da América Latina e da Ásia, e que tenham as mesmas obrigações, mas também os mesmos direitos, inclusive o direito a veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pode alterar o equilíbrio de forças em prol da necessidade do respeito do Direito Internacional.
O que se está a passar hoje no mundo não é outra coisa senão a violação da necessidade do respeito do Direito Internacional. É o que conduziu a esta situação explosiva que, se não controlada, pode escalar para uma situação ainda bem pior do que aquela que já vimos vivendo nos últimos anos.
Defendemos que Angola vai apoiar a candidatura da Tanzânia no Conselho, como membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas – por enquanto membro não permanente, evidentemente – e, de igual forma, a Tanzânia vai apoiar a candidatura de Angola ao posto de Director-Geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, candidatura que vem sendo trabalhada a favor da engenheira Josefa Sacko.
Bom, para concluir, Senhora Presidente Samia Hassan, ainda vamos a meio da visita. Ela vai continuar amanhã. Mas não sendo ainda o balanço da visita, permita-nos dizer já que estamos bastante satisfeitos com a forma não só como fomos recebidos, já foi dito no início, mas também com a forma como os nossos trabalhos decorrem, o que nos deixa a garantia de que as relações de cooperação entre os nossos dois países estão no bom caminho. E tudo quanto temos que fazer está nas nossas mãos. O sucesso dessa cooperação depende, em princípio, única e exclusivamente, de nós, governantes e homens de negócios de Angola e da Tanzânia.
Muito obrigado!”











