12 de September, 2026
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Engenheira Emília Bengui traça novo horizonte para com Angola

A engenharia Emília Bengui é uma angolana a trabalhar numa multinacional em Marrocos, a partir do qual quer concretizar um sonho o de levar para Angola o conhecimento e experiência acumulados no estrangeiro para conteúdos no seu desenvolvimento.

Aos 34 anos, Emília Bengui deixou Luanda há mais de uma década para estudar em Marrocos. Mas o seu maior projecto ainda está por concretizar: consiste em levar para Angola o conhecimento e a experiência que acumulou no estrangeiro.

De Angola levou sonhos. Em Marrocos encontrou desafios. Pelo caminho, construiu uma carreira, uma família e uma nova forma de olhar o mundo.

Quando Emília Samba Rodrigues Bengui fala de Angola, a distância desaparece por alguns instantes. Por exemplo, a capital do país, Luanda,continua presente nas memórias e o país todo continua nas suas preocupações e nos planos.

Em Marrocos, onde construiu uma carreira, divide os dias entre as responsabilidades profissionais e da família, entre a qual os três filhos menores. Mas a sua história não começou numa empresa internacional, nem numa sala de engenharia, porque começou muito antes, em Angola, quando ainda era criança e descobria, aos poucos, o fascínio por aquilo que se podia construir, transformar e fazer funcionar.

Hoje, mais de uma década depois de ter deixado o país, Emília olha para a experiência marroquina como uma preparação, já que viu essa oportunidade como uma esperança e decidiu abraçá-la.

Tal oportunidade chegou através de uma bolsa de estudos do Governo angolano, abraçou-a e nunca mais parou de avançar.

Uma mala, uma bolsa e um futuro por construir

Em 2014, depois de concluir o ensino médio no Instituto Politécnico do Namibe, Emília deixou Angola rumo a Marrocos, não sabendo exactamente tudo o que encontraria.

Sabia, porém, o que procurava era a formação, conhecimento e uma oportunidade para construir uma carreira.

A bolsa de estudos abriu-lhe a porta. O resto dependeria dela. A viagem representou muito mais do que uma mudança de país. Foi o início de uma transformação pessoal e profissional.

Emília chegava a uma sociedade diferente, com outra língua, outra religião, outra gastronomia e outros códigos culturais. E teria de aprender a viver nesse novo universo enquanto construía a sua formação académica.

O sonho começou com a eletricidade. O interesse pelas engenharias não nasceu por acaso. Durante o ensino médio, no curso de Energias e Instalações Elétricas, Emília encontrou uma área que correspondia à curiosidade que carregava desde a infância.

Um trabalho sobre sistemas elétricos e híbridos acabaria por reforçar essa paixão. A partir daí, a engenharia deixou de ser apenas uma área de estudo, mas tornou-se também um projecto de vida.

Em Marrocos, frequentou a Escola Superior Técnica de Berrechid e a Escola Nacional de Ciências Aplicadas. Estudou Engenharia Eléctrica e Energias Renováveis.

Mais tarde, avançou para um mestrado em Engenharia de Gestão Industrial na Faculdade de Ciências Técnicas de Settat.

O percurso académico foi construindo uma profissional com várias ferramentas: Energia, Electricidade, Gestão, Indústria. Conhecimentos que, mais tarde, encontrariam aplicação num dos sectores mais competitivos do mundo.

Quando a engenharia encontrou os automóveis

Hoje, Emília trabalha na Capgemini Engineering. A sua rotina está ligada a um problema que pode parecer simples para quem olha de fora, mas que representa custos significativos para a indústria automóvel: veículos parados à espera de peças.

O seu trabalho passa por acompanhar o fornecimento dessas peças, contactar fornecedores, procurar alternativas e encontrar soluções que permitam reduzir o tempo de imobilização dos veículos.

Tudo isso exige rapidez, organização e capacidade de encontrar respostas. “É uma grande honra fazer parte de um grande grupo, que é a Capgemini Engineering”, afirma.

O sector automóvel surgiu como um desafio e decidiu aceitá-lo, uma. Experiência que tem sido desafiadora, mas, ao mesmo tempo, gratificante. A menina que estudava eletricidade em Angola é hoje uma profissional inserida numa indústria global. Mas a carreira é apenas uma parte da história.

Três crianças, dois profissionais e nenhuma família por perto

Existe uma outra realidade por trás do currículo. É a vida depois do trabalho.

 

Emília e o esposo são dois profissionais a viverem longe das famílias, enquanto cuidam de três crianças pequenas. Não há avós por perto para ajudar. Não há irmãos para aparecerem de repente quando surge uma emergência. Não há a rede familiar que, em Angola, poderia tornar algumas tarefas mais simples, mas apenas o casal e os três filhos.

Reitera ser uma experiência desafiadora, por serem dois profissionais, distantes dos familiares, com três crianças. É mesmo um desafio tremendo. Essa última frase resume uma realidade conhecida por muitos emigrantes: construir uma vida fora do país de origem significa, muitas vezes, aprender a substituir a rede familiar por organização, parceria e resiliência.

Emília encontrou no marido o seu principal parceiro nessa caminhada. “Graças a Deus, procuramos fazer sempre o nosso melhor. Tenho um grande parceiro. Aprendemos muito e crescemos”, reconhece.

A única angolana da vila

A integração teve outro preço: começar praticamente do zero. Na vila onde vive, Emília conta ser a única angolana. Na instituição onde estudou, chegou a ser a primeira estudante estrangeira recebida.

E então surgiu a primeira grande barreira: a língua.

Angolana, vinda de um país lusófono, encontrou um ambiente académico e administrativo dominado pelo francês.

Teve cerca de seis meses para aprender a língua antes de entrar na universidade. Seis meses para deixar de ser apenas uma estrangeira e começar a tornar-se parte daquele novo ambiente.

Depois vieram outras diferenças como a religião, a gastronomia e os costumes. A forma de viver. Mas Emília decidiu não olhar para essas diferenças como muros. Preferiu vê-las como portas, uma diferença tem sido boa porque ajuda-a a crescer como pessoa, a abrir a visão e a estar aberta.

O estrangeiro também ensina a contar cada kwanza

Viver fora de Angola trouxe-lhe ainda outra aprendizagem: a importância da disciplina financeira. Para Emília, poupar não é apenas guardar dinheiro, mas também é preparar o futuro, criar margem para imprevistos e transformar planos em possibilidades.

 

“É importante ter uma boa estrutura de poupança e controlar as despesas. Temos de ter uma ideia real dos nossos gastos e visibilidade sobre para onde vai o nosso dinheiro.”, nota.

A experiência levou-a a defender uma educação financeira mais consciente, sobretudo entre aqueles que pretendem emigrar. A recomendação é directa: organizar as despesas, poupar desde cedo e saber exactamente para onde vai o dinheiro.

Marrocos mudou a forma como vê Angola

Há uma ironia na história de Emília. Foi preciso sair de Angola para olhar para o país com outros olhos. A distância tornou-a mais atenta. A experiência marroquina passou a funcionar também como uma espécie de laboratório.

Ao observar o desenvolvimento de sectores como os de transportes, a logística e a indústria, começou a imaginar o que poderia ser adaptado à realidade angolana. Continua a acompanhar o país através da Televisão Pública de Angola e das redes sociais. Vê avanços em áreas como saúde, agricultura e industrialização.

Mas identifica uma prioridade: os transportes e a logística. A opinião não surge apenas de uma análise à distância. É também fruto daquilo que viu acontecer diante dos seus olhos.

Desde 2014, Emília acompanhou investimentos marroquinos nas redes rodoviárias e ferroviárias, incluindo a expansão das ligações ferroviárias de alta velocidade. E percebeu uma coisa: transporte não é apenas transporte, mas é desenvolvimento.

Uma estrada pode aproximar uma comunidade.

Uma ferrovia pode encurtar distâncias.

Uma rede eficiente pode permitir que um estudante frequente uma universidade noutra província, que um trabalhador encontre oportunidades mais longe de casa ou que uma empresa consiga transportar produtos com maior rapidez.

O regresso que ainda não tem data

Emília ainda não sabe quando voltará definitivamente a Angola, mas sabe que quer levar alguma coisa consigo quando esse dia chegar.

Não apenas os diplomas. Os anos de experiência e não apenas as memórias de Marrocos, sim quer levar a “pátria mãe” conhecimentos, ideias e soluções. A experiência internacional deu-lhe uma visão que dificilmente teria adquirido se tivesse permanecido sempre no mesmo lugar.

 

E é precisamente essa visão que pretende colocar ao serviço do país. O seu projecto de futuro não termina em Marrocos. Talvez, na verdade, esteja apenas a ser preparado ali.

A história de Emília Bengui é a de uma jovem que saiu de Angola graças a uma oportunidade de estudo e acabou por construir uma carreira internacional.

É também a história de uma mulher que aprendeu uma nova língua, atravessou diferenças culturais, construiu uma família longe dos seus e encontrou o seu espaço numa indústria global.

Mas é, sobretudo, a história de alguém que não deixou Angola para trás, mas levou consigo. E, enquanto cresce profissionalmente em Marrocos, continua a preparar aquilo que considera ser o passo seguinte: voltar um dia ao país de origem não apenas para regressar, mas para devolver conhecimento.

Centro de Articulação com a Diáspora (CAD).