Agnety Raul aproxima produtos africanos do mercado europeu com aposta no empreendedorismo
Agnety Célia Marcelino Raul, jornalista angolana de 33 anos de idade, radicada em Portugal, criou a KUTAMBULA, uma plataforma digital de comércio de produtos alimentares africanos, com a ambição de valorizar as culturas de origem, promover oportunidades de negócio e aproximar os países africanos dos mercados europeus.
A vontade de transformar desafios em oportunidades tem orientado o seu percurso.
Natural de Ingombota (Luanda), a profissional da Comunicação Social encontrou em Portugal um espaço para aprofundar os seus conhecimentos, explorar novas possibilidades profissionais e desenvolver um projecto de empreendedorismo digital.
Mestre em Gestão de Novos Media pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e licenciada em Jornalismo pelo Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola, Agnety é também fundadora da aludida plataforma KUTAMBULA, que pretende facilitar o acesso a produtos alimentares africanos no mercado português.
A sua formação académica começou em Angola, onde concluiu o ensino médio de Comunicação Social no IMEL — Instituto Médio de Economia de Luanda.
Desde a infância, a comunicação despertava-lhe curiosidade, sobretudo pela forma como as histórias são contadas e pela influência que podem exercer sobre as pessoas.
O jornalismo permitiu-lhe desenvolver competências de comunicação e compreender a importância da informação, enquanto o mestrado ampliou a sua visão estratégica, particularmente no domínio digital, abrindo-lhe novos horizontes para o empreendedorismo.
A decisão de prosseguir os estudos em Portugal, para onde se mudou em 2022, esteve igualmente ligada a uma promessa pessoal.
Antes de morrer, o pai de Agnety recebeu dela o compromisso de que continuaria a investir na sua educação.
Embora já não esteja presente, essa promessa, que considera ter sido muito importante para a formação, diz servir-lhe sempre de motivação e permanece como uma das suas principais fontes de inspiração.
Da fotografia ao empreendedorismo
O percurso profissional de Agnety também está ligado à fotografia, área pela qual desenvolveu interesse durante o ensino médio, no âmbito dos trabalhos de reportagem e produção de imagens.
Após concluir essa etapa da formação, frequentou um curso técnico de fotografia e começou a trabalhar como assistente fotográfica, antes de avançar para a actividade independente.
Enquanto fotógrafa freelancer, colaborou com empresas como a Nestlé Angola e realizou trabalhos para a Administração Municipal de Canacassa, na província do Bengo.
A experiência permitiu-lhe desenvolver um olhar mais atento sobre a realidade e compreender a capacidade da imagem para transmitir mensagens e contar histórias que, por vezes, as palavras não conseguem expressar.
A mudança para Portugal representou, entretanto, uma nova etapa, marcada pela necessidade de conciliar os estudos com o trabalho.
Durante o mestrado, Agnety trabalhou no período nocturno, enfrentando o desafio de gerir as responsabilidades académicas e pessoais num contexto diferente daquele a que estava habituada.
A adaptação ao sistema de ensino e à nova realidade exigiu esforço, disciplina e resiliência.
Ainda assim, a experiência reforçou a sua convicção de que as circunstâncias profissionais de um determinado momento não devem limitar as ambições nem definir o potencial de uma pessoa.
KUTAMBULA: uma resposta à saudade de casa
A ideia de criar a KUTAMBULA nasceu de uma necessidade pessoal que acabou por revelar uma oportunidade de negócio.
Longe de Angola, Agnety sentia falta dos produtos alimentares com os quais cresceu e começou a procurar estabelecimentos que comercializassem produtos africanos.
Nas conversas com outros cidadãos africanos, particularmente angolanos, percebeu que essa dificuldade era partilhada por muitas pessoas.
Foi a partir dessa constatação que começou a desenvolver a ideia de uma plataforma digital de comércio, concebida para aproximar consumidores e comerciantes e facilitar o acesso a produtos alimentares africanos em Portugal.
Numa primeira fase, a KUTAMBULA está direccionada para produtos provenientes de países africanos de língua oficial portuguesa.
Actualmente, o projecto encontra-se em desenvolvimento, com a validação da proposta de negócio, a recepção de inscrições de comerciantes e a formalização de parcerias estratégicas, nomeadamente nas áreas da logística e dos meios de pagamento digitais.
A expectativa é validar o modelo de negócio a partir do primeiro trimestre de 2027.
Para Agnety, um dos maiores desafios consiste em transformar uma ideia numa solução viável e escalável, conquistar a confiança dos consumidores e comerciantes e garantir a consistência necessária para o crescimento da plataforma.
A empreendedora acredita que o comércio digital pode contribuir para aumentar a visibilidade dos negócios africanos, facilitando o acesso dos consumidores aos produtos e valorizando a sua origem.
Por isso, a KUTAMBULA pretende ir além da comercialização, integrando informações sobre a história, a cultura e as tradições associadas aos produtos.
A inclusão de línguas africanas na plataforma figura igualmente entre as ambições do projecto.
No futuro, a iniciativa pretende estabelecer ligações comerciais com os países de origem dos produtos, aproximando mercados e criando novas oportunidades para comerciantes e produtores africanos.
Viver na diáspora: adaptação, trabalho e família
A vida em Portugal tem sido também uma experiência de aprendizagem pessoal e intercultural.
Agnety Raúl considera que a sua integração decorreu de forma tranquila, graças à disponibilidade para conhecer, respeitar e adaptar-se a uma realidade diferente.
Ao longo deste percurso, construiu relações de amizade com pessoas de várias nacionalidades, entre as quais cabo-verdianos, brasileiros, são-tomenses e guineenses.
Esses contactos, considera, têm contribuído para uma experiência enriquecedora, permitindo-lhe conhecer outras culturas e perspectivas.
A gestão financeira constitui outro aspecto importante da sua vida no estrangeiro.
A jornalista defende a necessidade de organizar as despesas, tomar decisões conscientes e estabelecer objectivos claros.
A quem pretende emigrar, aconselha preparação financeira, disposição para trabalhar e consciência de que construir uma vida noutro país exige tempo e esforço.
Apesar da integração e das oportunidades encontradas em Portugal, a distância da família continua a ser uma das maiores dificuldades.
A maior parte dos seus familiares permanece em Angola, e as saudades dos convívios, das conversas, das festas de quintal e dos momentos partilhados fazem parte do quotidiano.
O apoio familiar, contudo, tem sido fundamental.
Segundo Agnety, os seus familiares participam inclusivamente em actividades ligadas aos projectos profissionais, como sessões fotográficas e conteúdos publicitários, contribuindo para que se sinta acompanhada nesta caminhada.
“A minha família é tudo o que tenho e é a minha maior força”, reconhece, destacando o papel desse apoio na renovação da esperança e da motivação para continuar a perseguir os seus objectivos.
Educação e oportunidades para a juventude
Mesmo radicada em Portugal, Agnety mantém-se atenta à realidade angolana e considera fundamental investir na educação, na formação prática, na inovação e no empreendedorismo juvenil.
Na sua perspectiva, incentivar os jovens a empreender não é suficiente: é necessário criar condições para que possam desenvolver as suas ideias, transformar projectos em negócios e encontrar soluções capazes de contribuir para o desenvolvimento do país.
A experiência adquirida em Portugal permitiu-lhe conhecer novas ferramentas digitais e outras formas de trabalhar a comunicação, conhecimentos que pretende aplicar em iniciativas que valorizem negócios, aproximem pessoas e criem oportunidades.
A possibilidade de regressar a Angola não está excluída, embora, neste momento, a sua prioridade seja consolidar a KUTAMBULA no mercado português, validar o modelo de negócio e preparar a expansão para outros mercados europeus e africanos.
Garantia de continuidade às origens
Independentemente do lugar onde venha a desenvolver a sua actividade, Agnety garante que continuará ligada às suas origens.
A saudade da família, dos sabores, da música, dos convívios e da terra natal permanece como uma ligação afectiva que a distância não consegue apagar.
“Sou patriota, amo Angola e, sempre que estiver distante, sentirei saudades de casa, dos nossos sabores, da nossa terra, das nossas músicas e dos nossos convívios”, revela.
Ambição internacional e valorização das mulheres
A nível pessoal, tem uma ambição que considera um dos grandes objectivos da sua trajectória: chegar à capa da revista Forbes, como uma das mulheres mais influentes do mundo.
Mais do que alcançar reconhecimento, deseja que o seu percurso seja associado a um impacto positivo e à criação de oportunidades para outras pessoas.
A sua mensagem para os jovens é clara: investir no conhecimento, desenvolver competências e não esperar passivamente que as oportunidades apareçam.
Para Agnety, é fundamental que cada pessoa procure criar as suas próprias oportunidades, com preparação, iniciativa e determinação.
Às mulheres, deixa um apelo particular à formação e à valorização do próprio potencial.
Defende que não devem ficar à espera da validação ou do reconhecimento de terceiros para ocuparem os espaços para os quais estão preparadas.
Apelo ao investimento no conhecimento
Reitera o apelo no investimento em conhecimento, por esta forma gerar liberdade.
Daí aconselhar a necessidade das pessoas potencializarem-se para ocuparem os espaços que merecem por competência.
Entre a comunicação, a fotografia e o empreendedorismo digital, Agnety Raul procura construir um percurso que una conhecimento, inovação e valorização cultural.
Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)










