Cândido Coxi: Entre Moscovo e Luanda, a construir pontes para o futuro de Angola
Aos 26 anos, Cândido Coxi representa uma geração de jovens angolanos que ousaram atravessar fronteiras em busca de formação, mas que mantêm o olhar firmemente voltado para o desenvolvimento do seu país. Natural do Rangel, Vila Alice Banda, em Luanda, o seu percurso é marcado por escolhas pragmáticas, resiliência e uma visão clara de impacto social e económico.
Um percurso moldado pelas circunstâncias
Apesar de actualmente se encontrar na área das finanças, a sua vocação inicial era bem diferente. Desde criança que sonhava ser químico. A Química fascinava-o. No entanto, como acontece com muitos jovens angolanos, as condições económicas familiares influenciaram o rumo académico.
Ingressou no ensino médio no curso de Finanças, no IMEL, após o seu nome constar nas listas de admissão. “Estudar gratuitamente era a melhor opção naquele momento”, reconhece. Mesmo não sendo a sua paixão, decidiu aproveitar a oportunidade. Mais tarde, ao concluir o ensino médio, optou por manter-se na mesma área por acreditar que a consistência formativa é essencial para construir uma base sólida.
Prosseguiu os estudos no Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (Insutec), no curso de Contabilidade e Finanças. Frequentou até ao terceiro ano, mas a exigência de conciliar dois empregos com a vida académica tornou-se insustentável. O cansaço acumulado e o ritmo intenso levaram-no a tomar uma decisão difícil: interromper temporariamente os estudos.
“Foi uma decisão bastante difícil”, afirma. Ainda assim, essa pausa acabou por abrir caminho a uma oportunidade inesperada.
A bolsa que mudou o rumo
A possibilidade de estudar na Rússia surgiu através de uma colega que o incentivou a candidatar-se a uma bolsa de estudos. Curiosamente, não foi ele quem tratou de todo o processo inicial. Após ser seleccionado e aprovado nos testes, conversou com a família e decidiu aceitar o desafio.
Foi apenas durante a viagem, numa escala na Etiópia, que tomou verdadeira consciência da dimensão da decisão. “Percebi que estava muito longe de casa e que já não havia volta a dar.” Ainda assim, escolheu avançar. Para Cândido, essa experiência reforçou uma convicção pessoal: avançar não significa necessariamente chegar, mas é o único caminho possível para quem quer evoluir.
Actualmente, encontra-se em Moscovo a frequentar Engenharia Financeira na Universidade de Economia Plekhanov (Reu-Plehanova), uma das instituições de referência na área económica na Federação Russa.
Tecnologia e finanças: uma combinação estratégica
O interesse pela Engenharia Financeira surge da conjugação de duas áreas que o motivam: tecnologia e finanças. Para Cândido, a intersecção entre ambas é estratégica para o futuro das economias emergentes.
Num contexto global marcado pela digitalização dos mercados, fintechs, instrumentos financeiros inovadores e novos modelos de financiamento, acredita que esta formação lhe permitirá desenvolver soluções adaptadas à realidade angolana, tornando o sistema financeiro mais inclusivo e orientado para a produção.
Liderança e espírito de iniciativa
Em Moscovo, Cândido não se limitou à vida académica. É actualmente Presidente da Associação de Estudantes Africanos da sua universidade, função que assumiu naturalmente devido ao seu perfil comunicativo, espírito solidário e capacidade de mobilização.
Mesmo enfrentando inicialmente barreiras linguísticas, destacou-se pelo apoio prestado a colegas recém-chegados. A sua dedicação foi reconhecida, tendo recebido mérito pelo trabalho desenvolvido.
Contudo, a liderança trouxe também desafios. A gestão de tempo tornou-se mais complexa, obrigando-o a aprender a delegar tarefas e a estruturar equipas de trabalho. Esta experiência reforçou competências essenciais como organização, coordenação e responsabilidade colectiva.
Foi igualmente da observação das dificuldades enfrentadas por estudantes estrangeiros — sobretudo a escassez de materiais de apoio acessíveis — que nasceu o projeto Pamoxi, plataforma digital que cofundou com Dilson. A iniciativa visa democratizar o acesso ao conhecimento académico, disponibilizando recursos úteis para estudantes dentro e fora da Rússia. O projecto pretende ser uma ferramenta de apoio global, contribuindo para reduzir desigualdades no acesso à informação.
Experiência profissional e maturidade precoce
Antes da sua partida para a Rússia, Cândido acumulou experiências profissionais diversificadas. Trabalhou no sector do Economato e como Assistente de Direcção na Diskfood (2019-2021), foi Professor de Inglês no ATL-Guilhermefastudo (2020-2022) e Recepcionista no Espaço-Vivo (2022-2023).
Estas experiências permitiram-lhe desenvolver competências interpessoais, sentido de responsabilidade e capacidade de adaptação — qualidades que hoje reconhece como fundamentais no seu percurso académico e associativo.
Actualmente dedica-se exclusivamente à formação superior, com foco na aplicação prática dos conhecimentos adquiridos.
Visão estratégica para Angola
Cândido acompanha atentamente a realidade socioeconómica angolana. Considera que houve progressos ao nível macroeconómico, como o controlo da inflação e a consolidação da dívida pública. No entanto, defende que o próximo passo deve incidir sobre a microeconomia.
Na sua perspectiva, é essencial facilitar o acesso ao microcrédito, reduzir barreiras ao empreendedorismo e criar instrumentos financeiros que apoiem diretamente quem produz. Pretende, no futuro, desenvolver soluções como títulos agrícolas ou fundos de investimento em energias renováveis, especialmente na área da energia solar.
“O meu objetivo é ser um construtor de pontes entre o capital e a produção real”, afirma.
Regresso com propósito
Apesar da experiência internacional, não equaciona permanecer definitivamente fora do país – o regresso é uma certeza. “Não existe lugar melhor do que a nossa casa.” O objectivo é voltar mais preparado, com competências técnicas e visão estratégica para contribuir activamente para o desenvolvimento nacional.
Entre a adaptação e a saudade
Sem familiares na Rússia, encontrou apoio em amigos que hoje considera como família. A adaptação não foi simples — a língua, o clima rigoroso e as diferenças culturais representaram desafios significativos. No entanto, encara essas dificuldades como parte do crescimento pessoal e profissional.
Participa activamente em eventos da comunidade angolana e africana no estrangeiro, reforçando os laços culturais e identitários.
Quando questionado sobre o que mais sente falta de Angola, não hesita: a família. A distância permitiu-lhe valorizar ainda mais os laços afectivos.
Uma mensagem à juventude angolana
Aos jovens que sonham estudar no estrangeiro, deixa uma mensagem clara: os sonhos não devem ser adiados. Defende que Angola precisa de quadros qualificados em diversas áreas técnicas e científicas, incluindo Engenharia Financeira.
Na sua visão, o desenvolvimento do país não depende apenas de dirigentes políticos, mas também de jovens preparados, disciplinados e comprometidos com soluções concretas.
Entre Moscovo e Luanda, Cândido Coxi constrói um percurso assente em coragem, adaptação e propósito. Mais do que um estudante no estrangeiro, representa uma geração que acredita que o conhecimento só faz sentido quando regressa para transformar realidades.












