13 de June, 2026
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Joy Pedro: do Lubango à Sérvia com a missão de levar a tecnologia de volta a Angola

Natural do Lubango, capital da província da Huíla, o jovem engenheiro estuda na Universidade de Belgrado, lidera a associação dos estudantes angolanos na Sérvia e trabalha numa empresa de Internet das Coisas — tudo ao mesmo tempo. Mas o seu olhar está sempre voltado para casa.

Joy Pedro representa uma geração de jovens angolanos que parte para o exterior sem perder de vista o país que deixou para trás. Actualmente a residir na Sérvia, onde frequenta a Universidade de Belgrado — uma das mais prestigiadas da região — na área de Electrónica, Joy acumula funções de estudante, profissional e líder associativo com uma determinação que impressiona quem o conhece.

A sua trajectória académica começou na Escola n.º 12, em Lubango, onde deu os primeiros passos na aprendizagem formal. Mais tarde, transferiu-se para a Escola Mandume, onde concluiu o ensino secundário e o ensino técnico de Electrónica e Telecomunicações, no Instituto Médio Politécnico da HUMPATA. Foi aí que a paixão pela área técnica se consolidou e nasceu o sonho de ir mais longe.

Em 2021, depois de terminar o ensino médio, Joy candidatou-se a bolsas de estudo e foi admitido na bolsa Sveto Srbiji Mundo na Sérvia, que lhe abriu as portas da Sérvia. Em 2022, saiu de Angola determinado a construir uma formação sólida numa universidade de prestígio internacional.

A escolha que mudou tudo

A área de Electrónica não estava nos planos iniciais de Joy Pedro. O primeiro sonho era tornar-se engenheiro de petróleo. Foi a sua mãe quem lhe sugeriu que investigasse o curso de Electrónica — e essa sugestão revelou-se determinante.

“Escolhi a área de electrónica depois de algum tempo a minha mãe me ter indicado esse curso, fiz investigações e então deixei aquele que era o primeiro sonho, ser engenheiro de petróleo. Hoje sou grato por ter conhecido essa área”, conta.

A transição não foi difícil de justificar: a electrónica revelou-se uma janela aberta para compreender os sistemas tecnológicos que fazem parte do quotidiano de todos. A experiência na Universidade de Belgrado tem correspondido às expectativas, com professores empáticos e ferramentas de ensino à altura de um estudante exigente e estrangeiro.

Da sala de aula para o mundo profissional

A Universidade de Belgrado realiza anualmente feiras de emprego e foi numa dessas iniciativas que Joy Pedro descobriu a BitGear — empresa especializada em sistemas electrónicos e Internet das Coisas. Visitou a bancada, ficou interessado, candidatou-se meses depois e foi admitido para o cargo de Engenheiro de Suporte para Sistemas de Internet das Coisas.

Para Joy, trabalhar na BitGear enquanto estuda é muito mais do que uma fonte de rendimento. É uma oportunidade única de conciliar teoria e prática em tempo real.

“Consigo ver na prática aquilo que eu aprendo na universidade e creio que vai me valer muito como profissional na área de Internet das Coisas e electrónica de modo geral”, afirma.

A equipa da BitGear é, na sua maioria, formada na mesma universidade onde Joy estuda, o que torna a colaboração especialmente enriquecedora. Os colegas apoiam-no nas questões académicas e ele retribui com empenho e dedicação profissional.

Além do trabalho e dos estudos, Joy Pedro assume ainda a vice-presidência da AESTARS— Associação dos Estudantes Angolanos na República da Sérvia, cargo para o qual foi convidado pelo presidente Edlío Nzinga, após ter servido anteriormente como coordenador de finanças na direcção anterior. A associação acompanha actualmente 45 estudantes angolanos matriculados em diversas faculdades sérvias, nas áreas de ciências sociais, ciências exatas, tecnologias e medicina.

“É difícil gerir estas três actividades, porém é possível”, admite, sublinhando que a organização rigorosa do tempo é o seu principal aliado.

A barreira da língua e a frieza do inverno

Estudar na Sérvia implica enfrentar desafios que vão muito além das matérias académicas. Um inquérito realizado pela AESTARS aos estudantes angolanos revelou que a barreira linguística é a maior dificuldade enfrentada — o ensino é inteiramente ministrado em sérvio, uma língua eslava com uma estrutura muito diferente das línguas latinas a que os angolanos estão habituados.

O clima é o segundo grande obstáculo. Os invernos sérvios são rigorosos, com frios intensos que perturbam a rotina dos estudantes provenientes de regiões tropicais.

No entanto, Joy descreve a adaptação como um processo gradual que foi sendo superado à medida que dominava a língua local. “À medida que aprendia a língua, percebia que os sérvios estão orgulhosamente preocupados em ensinar sobre a sua cultura e costumes. Isso permitiu-me aprender e adaptar-me de forma mais rápida”, explica.

Longe da família, Joy encontrou nos angolanos que conheceu na Sérvia um substituto afectivo que descreve com emoção: “Os angolanos que aqui conheci tornaram-se mais do que família para mim; tornaram-se amigos e irmãos, e esta é a minha família.”

Jornadas científicas e o poder do conhecimento documentado

Uma das iniciativas de que Joy Pedro mais se orgulha é a organização das Jornadas Académicas da AESTARS, que reuniram quase uma centena de estudantes angolanos na Sérvia numa troca intensa de conhecimento e experiências.

A ideia surgiu numa conversa com um amigo, Artur Franco, sobre a necessidade de documentar por escrito o trabalho intelectual dos angolanos que estudam no exterior. “Acreditamos no potencial dos angolanos e temos a certeza de que muita informação pode ser documentada de tal maneira que futuras gerações tenham onde consultar e possam implementar para o desenvolvimento de Angola”, explica.

Apesar de ter sido uma organização exigente por se tratar da primeira edição, o resultado superou as expectativas: a quantidade de estudantes envolvidos e a diversidade do material partilhado revelaram o enorme potencial desta iniciativa.

Ainda na universidade, Joy foi também membro do grupo H-Bridges, constituído para participar em concursos internacionais de electrónica de potência — mais uma forma de alargar horizontes e enriquecer o seu perfil profissional.

A Internet das Coisas como alavanca para Angola

Questionado sobre o impacto que a sua área de especialização pode ter no desenvolvimento de Angola, Joy Pedro não hesita: a Internet das Coisas é uma das tecnologias com maior potencial transformador para o país.

Na exploração petrolífera, os sensores instalados nos campos de produção permitiriam um conhecimento mais detalhado e eficiente dos recursos. No saneamento básico, a monitorização em tempo real dos níveis de resíduos urbanos tornaria a recolha de lixo mais eficaz. Na agricultura — uma das áreas mais promissoras de Angola — o mapeamento de solos e terrenos abriria caminho a uma produção mais moderna e sustentável.

“Acredito que a Internet das Coisas é, com certeza, uma das áreas que vai ajudar e relevar o desenvolvimento em Angola”, afirma com convicção.

O jovem vai mais longe: em parceria com Donel Badukila, está a desenvolver um curso denominado Mind Engineer, voltado para o ensino do pensamento sistémico aplicado à engenharia, com especial atenção ao contexto africano e angolano. O objectivo é preparar os jovens angolanos para pensar e agir como engenheiros que conhecem os seus recursos e o seu território.

Saudade e o desejo de voltar

Apesar de construir uma carreira sólida na Sérvia, Joy Pedro não imagina ficar longe de Angola para sempre. O regresso é uma certeza, não uma hipótese.

“Eu penso sim em regressar para Angola, e acredito que eu terei muito orgulho de futuramente poder, um dia, olhar para trás e dizer que as minhas mãos também fazem parte da construção desse belo país”, diz com uma emoção contida.

A saudade manifesta-se nos pormenores que só quem saiu pode valorizar verdadeiramente: as reuniões de família, o futebol de sábado de manhã com os amigos, a música angolana, o convívio espontâneo no táxi, “o cheiro da banana e da ginguba”.

Acompanha a actualidade angolana com regularidade, tanto pela internet como através de contactos frequentes com familiares, amigos e colegas. Esteve recentemente em Luanda, onde participou na conferência da Ordem dos Engenheiros de Angola, e ficou impressionado com o engajamento dos jovens profissionais que encontrou.

“Acredito que Angola ainda tem muito por desenvolver, mas também sou grato pelos passos que temos dado na questão do desenvolvimento do nosso país. Realmente tem havido mudanças”, reconhece.

Uma mensagem à juventude angolana

Joy Pedro deixa uma mensagem directa e prática aos jovens angolanos que queiram seguir as áreas de engenharia e tecnologia: “Leiam muito, aprendam inglês — é fundamental para as áreas de tecnologia e para a comunicação em engenharia. Façam cursos relacionados às áreas, aprendam bem as bases da engenharia, que são as ciências exactas, especificamente a matemática e a física. E aprendam programação; hoje em dia todas as engenharias estão ligadas, de certo modo, com a programação e o conhecimento das inteligências artificiais.”

E remata com uma filosofia que orienta a sua própria vida: “O estudo em engenharia é contínuo. Todos os dias precisamos de aprender e saber o que se passa no mundo da engenharia, para que não possamos ser descontinuados das nossas funções de engenheiro.”

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