Discurso integral do PR de Angola, João Lourenço, no Fórum Mundial da Alimentação
Roma, 12 Outubro 2026
“-Sua Majestade Letsie III, Rei do Lesotho,
-Sua Excelência Luis Abinader, Presidente da República Dominicana,
-Sua Excelência Delcy Rodrígues Gómez, Presidente em Exercício da República Bolivariana da Venezuela,
-Sua Excelência Maria José Pinto, Vice-Presidente do Equador,
-Sua Excelência Ellen Johnson Sirleaf, Antiga Presidente da República da Libéria,
-Excelentíssimo Senhor Qu Chu Dongyu, Director Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura,
-Representantes das Associações Juvenis,
-Excelências,
-Minhas Senhoras, Meus Senhores,
Permitam-me agradecer ao Sr. Chu Dongyu, Director Geral da FAO, pelo convite que me endereçou e pela oportunidade que disso decorre, de poder contribuir ao debate deste ano, cujo lema “Inovar Hoje para Alimentar Amanhã” encerra uma alta transversalidade de disciplinas e apela à responsabilidades que são simultaneamente nacionais e globais.
Aceitei o convite para participar deste Fórum Mundial da Alimentação de 2026 para, juntamente com Vossas Excelências, nesta bela cidade de Roma, expressar a minha convicção de que o tema que hoje abordamos aqui vai de encontro aos grandes desafios do nosso tempo.
O Director Geral lançou esta iniciativa desde o ano de 2021, como uma plataforma voltada para a reflexão sobre os caminhos a seguir para assegurarmos que a transformação dos sistemas alimentares acompanhe as profundas mudanças económicas, sociais, ambientais e tecnológicas da nossa era.
-Minhas Senhoras, Meus Senhores,
Olhando para o mundo dos nossos dias, observamos com inquietação os paradoxos que o caracterizam, sobretudo porque a abundância de alimentos disponível nos países desenvolvidos em virtude da sua grande capacidade tecnológica e produtiva contrasta dolorosamente com a dificuldade de acesso a alimentos de milhões de pessoas em vastas regiões do nosso planeta, que continuam confrontadas com a fome e a má nutrição.
Estamos diante de uma evidência que exige de todos nós uma atitude capaz de ajudar a pôr fim a este flagelo, que do ponto de vista moral nos impele a agir com urgência para passarmos da simples constatação dos factos para iniciativas que devem ir desde a capacitação técnica, passando pela transferência de tecnologias, até à mobilização de recursos destinados ao investimento no sector agrícola dos países menos desenvolvidos.
Além das limitações técnicas e outras, os problemas da fome devem-se também a um conjunto de outros factores ligados ao eclodir cíclico de conflitos armados com consequências negativas directas sobre a produção, que perturbam as cadeias logísticas globais de abastecimento e geram efeitos humanitários desastrosos e a ocorrência de alterações climáticas cada vez mais violentas, que trazem consigo as tempestades, chuvas torrenciais, cheias, inundações, secas severas, a desertificação e o aumento de pragas.
A segurança alimentar é um objectivo e uma prioridade que só se conseguirá concretizar com benefícios para todos, no quadro de um esforço conjugado em que, em função das responsabilidades e valências específicas de cada um, devem intervir governos, o sector privado, instituições científicas, organizações não-governamentais, a sociedade civil e outras entidades que, no seu conjunto, garantem a abordagem transversal desta importante questão e a possibilidade de uma solução integrada do problema.
É urgente trabalharmos no sentido de aperfeiçoar o modelo de cooperação internacional, que se deve orientar no sentido de abandonar a lógica assente na dominação de uns sobre outros e na obtenção de vantagens que ignoram interesses de terceiros, factos que geram tensões e inviabilizam o diálogo e a concertação necessárias à formulação e à implementação de estratégias que garantam a paz, a estabilidade e a segurança mundial, em cujo âmbito conseguiremos promover e desenvolver mais facilmente as nossas economias e acabar ou reduzir consideravelmente a fome e a miséria em diferentes nações e regiões do nosso planeta.
A erradicação do flagelo da fome no mundo exige respostas colectivas e, por esta razão, considero que este Fórum Mundial da Alimentação é a plataforma adequada para se pensar numa arquitectura de segurança alimentar que tenha em conta os factores de natureza política, financeira, técnica, científica e outros que intervêm nas capacidades de produção agrícola e no seu melhoramento em todo o mundo.
Isto coloca-nos diante da percepção de que a inovação deve ser vista de uma forma abrangente e não circunscrita apenas à sua dimensão tecnológica.
-Excelências,
África possui um enorme e vasto potencial de recursos para desenvolver uma agricultura florescente. No entanto, confronta-se com o problema da fome e da desnutrição, o que não é, a todos os títulos, aceitável, mas impõe-se que se reconheça que as realidades que se observam no continente são o reflexo da combinação dos vários factores que já enumerei, de entre os quais os conflitos armados, os problemas que decorrem das alterações climáticas e da necessidade da capacitação das pessoas para o fomento da agricultura familiar, que é, na verdade, a espinha dorsal do nosso sistema de produção alimentar.
Este é o diagnóstico dos problemas que ainda enfrentamos em África neste sector e, por isso, impõe-se-nos agora o desafio de reverter este quadro com políticas realistas concebidas com base nas nossas capacidades de utilização dos meios técnicos e tecnológicos disponíveis, no melhoramento das práticas assentes sobre os conhecimentos tradicionais e na formação das pessoas a todos os níveis.
África tem o potencial para ser o celeiro do mundo, dispõe de abundantes terras aráveis, imensos cursos de água entre rios e grandes lagos, no geral bom clima, sol.
Precisamos de investidores com recursos, tecnologia e transmissão de conhecimento aos nossos jovens para aumentarmos a produtividade por hectare, a qualidade do produto colhido e o volume global de produção, aumentar as exportações de produtos agrícolas e pecuários, contribuindo mais para a formação do Produto Interno Produto dos nossos países.
Em Angola concebemos e estamos a executar um ambicioso Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul do país (PCESSA), que abrange as províncias do Cunene, Huíla e Namibe, orçado em 4.2 mil milhões de dólares americanos, já parcialmente executado e que vai contribuir significativamente no combate contra a fome e a pobreza.
O Programa compreende a construção de albufeiras para armazenar milhões de metros cúbicos de água transferida do rio Cunene e centenas de quilómetros de canais a céu aberto para servir as pessoas e desenvolver a agricultura e pecuária em qualquer estação climática do ano.
Para o salto em frente que pretendemos dar na agropecuária em Angola, temos contado com uma forte contribuição da FAO, com a qual desenvolvemos uma cooperação profícua.
Esta cooperação tem contribuído para a definição de prioridades, cuja execução já mostrou resultados positivos que nos encorajam a prosseguir, por nos ter ajudado a alcançar um bom resultado no esforço que desenvolvemos de aproximar zonas de produção, centros de transformação alimentar e mercados.
Quero também dar destaque neste contexto à Iniciativa Hand-in-Hand e à Iniciativa AgroCorredores, por constituírem instrumentos relevantes para a promoção de oportunidades de investimento, de desenvolvimento do agronegócio e de aumento da competitividade do sector agrícola nacional.
Este processo só é funcional se conseguirmos criar corredores económicos que permitam a actividade comercial e a circulação de pessoas e bens com a fluidez que estamos a projectar para o Corredor do Lobito, que não tem apenas uma dimensão logística, pois pode estimular a criação de indústrias, novas cadeias regionais de valor ligando o potencial produtivo de diferentes países aos mercados regionais e internacionais.
O Corredor do Lobito é uma plataforma de oportunidades capaz de beneficiar as populações e de contribuir para uma maior integração económica do continente, em articulação com os mecanismos africanos existentes, de que destaco a Zona de Livre Comércio Continental Africana, que representa um vasto mercado de aproximadamente 1 bilião e meio de consumidores.
África tem objectivos claramente definidos na Agenda 2063 de desenvolvimento continental, no âmbito da qual as prioridades de maior destaque consistem na construção de infra-estruturas que intervêm muito directamente em todo o processo de criação de factores de desenvolvimento, no âmbito dos quais a agricultura assume uma importância vital.
Não temos alternativa a este caminho que temos vindo a percorrer, conscientes de que os obstáculos que vimos transpondo, resultantes de factores imprevisíveis como a seca, as inundações e outros, nos obrigam a um esforço de adaptação com recurso a tecnologias, técnicas e conhecimentos científicos que reforcem a resiliência dos sistemas alimentares globais face às intempéries.
A FAO tem, neste contexto, um papel fundamental a desempenhar, não apenas como um espaço de concertação política, mas também como plataforma para aproximar governos, o mundo académico e científico, as instituições financeiras, o sector privado e a sociedade civil na abordagem e na busca de soluções para estes problemas.
-Excelências,
Este Fórum, que tem o objectivo de providenciar uma plataforma de interacção entre os vários protagonistas dos sistemas alimentares, encerra uma abrangência que inclui o Fórum da Ciência e da Inovação e o Fórum Global da Acção Juvenil, duas iniciativas que, de forma conjugada, vão desempenhar um importante papel na concretização do lema “Inovar Hoje para Alimentar Amanhã”.
Esta edição do Fórum merece da nossa parte uma atenção muito especial por ter a particularidade de dar uma grande ênfase à investigação como meio de se promover um progresso sustentável mais equitativo e eficiente.
Também é importante para Angola, por nos dar a oportunidade de dar a conhecer aos presentes e ao mundo a nossa decisão, já concertada com a União Africana, de apresentar a engenheira angolana como concorrente ao lugar de Director Geral da FAO.
Trata-se da Embaixadora Josefa Leonel Correia Sacko, que desempenhou por três anos as funções de Secretária-Geral da Organização Inter-Africana do Café e as funções de Comissária da União Africana para Agricultura, Desenvolvimento Rural, Economia Azul e Ambiente Sustentável, de 2017 a 2024.
Por acreditarmos que, caso venha a assumir a responsabilidade de estar à frente dos destinos da FAO, fará um bom trabalho não apenas para o continente africano mas para a segurança alimentar à escala global, pedimos o apoio de todos para sua eleição.
Faço votos de que, no fim dos trabalhos deste Fórum, cheguemos a resultados que ajudem a mudar, de forma prática, o actual panorama mundial da produção de alimentos que nos conduza à segurança alimentar e a uma prosperidade partilhada à escala global.
Muito obrigado pela vossa atenção.”










