Josemar Chissola encontra na agricultura de precisão caminho para transformar Angola
O engenheiro agrícola Josemar António Ndembi Chissola, de 25 anos de idade, formado na Hungria, prepara-se para aprofundar os estudos e quer colocar o conhecimento adquirido no estrangeiro ao serviço do desenvolvimento rural e da agricultura angolana.
O jovem angolano olha para o percurso que o levou de Angola à Hungria como uma viagem feita de aprendizagem, desafios e persistência.
Natural do Sumbe, província do Cuanza-Sul, Josemar Chissola construiu uma trajectória académica marcada por diferentes áreas de formação e encontrou na agricultura, na tecnologia e no desenvolvimento rural o campo onde pretende deixar a sua marca.
A sua formação começou na Escola 23, onde frequentou o ensino primário. Mais tarde, mudou-se para Luanda, onde estudou no Colégio Baptista da Paz e concluiu o ensino secundário.
De regresso ao Sumbe, em 2015, ingressou no Instituto Médio Politécnico do Sumbe, onde frequentou o curso de Mecânica de Frio e Climatização.
Em 2020, deu mais um passo na formação académica ao ingressar na Universidade Óscar Ribas, em Luanda, para estudar Engenharia Eletromecânica.
Um ano depois, porém, surgiu uma oportunidade que mudaria o rumo da sua vida académica: estudar no estrangeiro.
Foi assim que Josemar chegou à Hungria, onde passou a frequentar a Hungarian University of Agriculture and Life Sciences (MATE), instituição na qual concluiu a licenciatura em Engenharia Agrícola.
Actualmente, continua a sua formação académica no país europeu.
Da engenharia à agricultura
A mudança entre áreas de formação pode parecer, à primeira vista, um percurso pouco linear.
Para Josemar, cada etapa acabou por contribuir para a construção do profissional que pretende ser.
A passagem pela Mecânica de Frio e Climatização e, posteriormente, pela Engenharia Eletromecânica proporcionou-lhe contacto com áreas técnicas e tecnológicas.
Já a Engenharia Agrícola permitiu-lhe aproximar-se de uma questão que hoje considera fundamental: como utilizar a tecnologia para responder aos desafios da agricultura africana.
Foi durante a licenciatura que começou a desenvolver um interesse particular pelo desenvolvimento rural.
Percebeu que o crescimento da agricultura não depende apenas da capacidade de produzir alimentos, mas também de factores sociais, económicos, tecnológicos e estruturais que condicionam a vida das comunidades rurais.
Ressalva que seu objectivo não é simplesmente ter um diploma, mas pretende que a formação tenha utilidade prática e possa contribuir para resolver problemas reais.
Da tecnologia ao serviço do campo
Uma das áreas que mais despertou o interesse do jovem engenheiro é a agricultura de precisão e a aplicação das tecnologias de informação e comunicação ao sector agrícola.
Através da sua investigação em Agro-ICT e agricultura de precisão, Josemar teve contacto com ferramentas como GPS, GIS, sensores, sensoriamento remoto, Internet das Coisas, análise de dados e inteligência artificial.
Mais do que aprender a utilizar novas tecnologias, a experiência levou-o a questionar de que forma essas ferramentas podem ser adaptadas às necessidades dos agricultores africanos.
Na sua perspectiva, África possui um enorme potencial agrícola, mas continua a enfrentar obstáculos relacionados com o acesso à tecnologia, financiamento, conhecimento técnico, infraestruturas e recursos.
É neste espaço entre tecnologia e realidade rural que pretende desenvolver a sua carreira.
Para o jovem engenheiro Josemar, ferramentas tecnológicas podem ajudar os produtores a utilizar de forma mais eficiente a água, os fertilizantes e outros recursos, além de permitir um acompanhamento mais preciso das culturas e das condições do solo.
Entre o laboratório e o campo
A experiência profissional na Hungria também contribuiu para aproximá-lo da realidade da investigação agrícola.
Na Singenta, em Ócsa, participou em actividades de investigação e desenvolvimento relacionadas com diferentes culturas, entre elas tomate, milho, couve-flor e melancia.
As tarefas incluíram colheita, avaliação das características dos frutos, extracção de sementes, organização de parcelas e outros procedimentos ligados à investigação agrícola.
A experiência permitiu-lhe compreender melhor a diferença entre o conhecimento adquirido em sala de aula e a sua aplicação num ambiente profissional.
Aprendeu, sobretudo, a importância do rigor, da organização, do trabalho em equipa e da atenção aos detalhes.
Além da experiência ligada à investigação agrícola, Josemar também teve trabalhos em regime parcial, incluindo actividades na QFC e na área de logística de uma empresa.
A conciliação entre estudos e trabalho tornou-se parte da sua experiência como estudante internacional.
A Hungria e os desafios de começar de novo
Sair de Angola em 2021 significou mais do que mudar de universidade ou de país.
Significou entrar numa realidade cultural, linguística e social completamente diferente.
Idioma húngaro proporciona contactos
O húngaro é uma língua bastante diferente do português e do inglês, por isso foi necessário ter muita paciência e, principalmente, vontade de aprender, explica.
A adaptação ao ambiente académico e social exigiu igualmente tempo.
Mas a experiência numa universidade internacional acabou por lhe proporcionar contacto com estudantes de diferentes países e perspectivas.
Ao longo dos anos, Josemar diz ter-se tornado mais independente, resiliente e aberto ao mundo.
A vida no estrangeiro também o obrigou a desenvolver uma relação mais cuidadosa com o dinheiro.
Como estudante e trabalhador, o engenheiro afirma ter aprendido a estabelecer prioridades, planear despesas e distinguir aquilo que é essencial daquilo que pode esperar.
Para ele, qualidade de vida não significa necessariamente possuir muitos recursos financeiros.
Significa também ter acesso à educação, poder desenvolver-se profissionalmente e dispôr de tranquilidade para construir uma perspectiva de futuro.
Angola continua no centro das preocupações
Josemar acompanha regularmente a realidade do país através dos meios de comunicação, plataformas digitais, redes sociais, amigos e familiares.
Na sua visão, Angola possui condições para desempenhar um papel muito maior na produção agrícola.
O país, considera, tem terras com potencial produtivo, uma população jovem e recursos naturais que podem contribuir para o crescimento económico.
Mas reconhece igualmente desafios como o desemprego juvenil, a necessidade de diversificação económica, o acesso a uma educação de qualidade, a melhoria das infra-estruturas e o desenvolvimento do sector agrícola.
A agricultura, defende, pode contribuir para produzir mais alimentos, criar empregos e reduzir a dependência das importações, desde que existam investimentos e políticas capazes de apoiar efectivamente os produtores.
Regresso com propósito definido
O regresso a Angola faz parte dos planos de Josemar, embora não queira que seja apenas um regresso motivado pela saudade.
O jovem engenheiro pretende voltar num momento em que possa transformar a experiência internacional em soluções concretas.
Investigação, formação, empreendedorismo, transferência de tecnologia e desenvolvimento de projectos são algumas das possibilidades que considera para contribuir com o país.
O sonho de regressar a Angola
Regressar a Angola seria mais significativo se pudesse voltar preparado para participar na construção de soluções e não apenas como alguém que terminou os estudos no exterior e tem saudade de casa, afirma.
O seu interesse está particularmente voltado para a agricultura de precisão, tecnologia aplicada ao sector agrícola e desenvolvimento rural.
A família de Josemar continua em Angola e embora tenha construído na Hungria uma rede de amigos que considera importante para a sua adaptação, há coisas que a distância não substitui.
Sente falta da família, dos amigos, da comida angolana, do clima e da forma espontânea de convivência.
Mas há uma saudade que se sobrepõe às outras: a de estar simplesmente em casa.
“Viver fora ensinou-me a valorizar ainda mais as minhas origens e a perceber que, independentemente de onde estivermos, Angola continua a fazer parte de nós”, ressalva.É necessário apenas coragem
O percurso de Josemar também é, para ele, uma mensagem dirigida aos jovens.
Aos que enfrentam dificuldades, rejeições ou dúvidas sobre o futuro, aconselha a não desistirem de si próprios e a investirem no conhecimento.
Defende ainda a importância de sair da zona de conforto e procurar novas oportunidades, mesmo quando isso implique enfrentar o desconhecido.
Conforme o jovem Josemar, a falta de coragem é que faz com que estejamos estagnados.
Às pessoas com deficiência, deixa uma mensagem igualmente assente na perseverança.
Reconhece que podem existir limitações e dificuldades, mas defende que estas não devem determinar antecipadamente aquilo que uma pessoa é capaz de alcançar.
A sua própria trajetória, diz, ensinou-lhe que não é necessário esperar por condições perfeitas para começar, mas apenas de coragem.
Hoje, enquanto continua a sua formação na Hungria, Josemar Chissola prepara o próximo capítulo de uma história que começou no Sumbe.
Entre a engenharia, a agricultura e a tecnologia, o jovem angolano procura construir uma carreira que ultrapasse a conquista de títulos académicos: quer transformar conhecimento em soluções e fazer da formação adquirida no estrangeiro uma ferramenta para contribuir para o futuro agrícola de Angola e de África.
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