5 de September, 2026
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Gouvânia Goulão aposta contribuir na transformação da saúde em Angola

 

Natural de Luanda, Gouvânia Rossana Miguel Goulão iniciou  estudos no Centro Infantil Kiesse. Frequentou a primeira e a segunda classe no Colégio Nossa Senhora da Luz e, posteriormente, mudou-se para Portugal, onde estudou da terceira à quinta classe.

De regresso a Angola, passou pelo Colégio Vereda das Flores, onde fez a sexta classe e pelo Colégio Nossa Senhora da Anunciação, no Zango, onde frequentou a sétima classe.

Concluiu o ensino médio no Colégio Pitabel, no Parque das Acácias, na área de Ciências Físicas e Biológicas.

Ainda no ensino médio, em Luanda, o professor Osvaldo, da cadeira de Geometria Descritiva, percebeu que havia na estudante Gouvânia mais do que boas notas, daí a ter incentivado a procurar novas oportunidades tal como já apelava com frequência aos demais colegas.

Gouvânia recorda particularmente uma das mensagens que recebeu do docente que dizia:” pelas suas notas e pelo seu desempenho, poderia candidatar-se a uma bolsa de estudos e teria boas possibilidades de ser bem-sucedida”.

O conselho foi acatado. Apenas com 15 anos de idade, a ideia de estudar no exterior começou a ganhar forma e candidata-se então a uma Bolsa de Estudo a partir do Instituto Nacional de Bolsas de Estudos (INAGBE) para frequentar curso de Medicina numa das Universidades no Exterior, tendo a Sérvia um dos primeiros países a responder a propósito.

Ideia encontra eco em casa

A ideia encontrou eco no seio familiar, porquanto sua mãe também falava frequentemente sobre a possibilidade da filha dar continuidade dos estudos no exterior e, aos poucos, aquilo que inicialmente parecia apenas uma possibilidade começou a transformar-se num projecto de vida .

Aliás, os pais são licenciados em Medicina e a profissão esteve sempre desde cedo presente no seu quotidiano, daí a opção da escolha da mesma ter encontrado fácil acolhimento no ambiente familiar.

Foi nessa fase que começou a olhar para além das fronteiras de Angola.

Uma nova língua, um novo clima, uma nova vida.

Aos 23 anos, a jovem angolana Gouvânia Rossana Miguel Goulão, quase a terminar o curso de Medicina na Sérvia, prepara-se para regressar a Angola, onde pretende juntar-se aos esforços do Governo na manutenção do bem estar dos cidadãos e dar o seu contributo na melhoria dos cuidados primários de saúde.

Apesar de construir uma vida académica e pessoal na Sérvia, Gouvânia não perdeu de vista Angola. Acompanha a realidade do país através dos meios de Comunicação Social angolanos e mantém uma preocupação particular com o sistema de saúde.

Para ela, a melhoria dos cuidados primários deve estar entre as prioridades nacionais, com a criação de mais postos e centros médicos mais bem equipados, manutenção de profissionais melhor preparados e actualizados capazes de responder às necessidades da população.

A chegada a Sérvia, no entanto, trouxe desafios que nenhum boletim de notas poderia preparar, com realce ao frio, a língua e a gastronomia

Vinda de Luanda, Gouvânia estava habituada a um clima completamente diferente. “O frio de Luanda de 20 graus nada se compara ao frio de 10 graus que encontrou na Sérvia, recorda, entre o humor e a memória de uma das primeiras dificuldades de adaptação.

Por sua vez, o sérvio era completamente diferente do português a que estava habituada. O tempo de preparação também foi curto: teve aproximadamente dois meses e meio para aprender a língua antes de enfrentar o novo ambiente académico, bem como havia ainda a gastronomia que confessa ter sido muito difícil adaptar-se.

Hoje, anos depois da chegada, a gastronomia angolana continua entre as coisas de que mais sente falta.

Mas se o clima, a língua e a alimentação representavam desafios no quotidiano, era na Universidade que Gouvânia enfrentaria uma das suas maiores provas.

Quando estudar parecia uma corrida contra o tempo, a adaptação ao sistema académico sérvio não foi imediata.

Gouvânia sentia que estava a ficar para trás enquanto os colegas pareciam acompanhar com maior facilidade o ritmo do curso. A barreira linguística tornava o processo ainda mais exigente, foi preciso tempo para encontrar o próprio ritmo.

A mudança começou a sentir-se sobretudo a partir do segundo e terceiro anos da Facultade. Aos poucos, conseguiu adaptar-se, compreender melhor o sistema e acompanhar o curso, “Graças a Deus, consegui entrar nos eixos”, recorda.

A experiência acabou por transformar uma dificuldade académica numa oportunidade de crescimento pessoal.

Longe da família, num país com uma língua, uma cultura e realidade diferentes, aprendeu a ser mais independente e a lidar com responsabilidades que antes eram partilhadas com os pais.

Sem familiares na Sérvia, a distância da família foi, por isso, uma das partes mais difíceis da experiência.

A família sempre esteve muito presente no seu dia-a-dia e a separação criou um vazio que nem sempre foi fácil preencher, mas, no caminho, surgiram novas pessoas.

Conta ter conhecido pessoas que hoje se tornaram muito bons amigos e considera-as sua família.

Essa nova rede de apoio tornou-se fundamental para atravessar os momentos mais difíceis e ajudou a transformar um país inicialmente estranho num lugar onde também passou a sentir-se em casa.

Ainda assim, há coisas que nenhuma nova amizade consegue substituir completamente, a  família é uma delas, a gastronomia angolana é outra.

Liderança da comunidade estudantil angolana  na Sérvia

A experiência de Gouvânia na Sérvia não se limita a Medicina. Activa na comunidade angolana, desempenha actualmente a função de secretária para os Assuntos Académicos da Associação de Estudantes Angolanos na Sérvia.

A missão da organização é clara: apoiar os estudantes, defender os seus interesses e direitos e reduzir as dificuldades enfrentadas por quem chega ao país para estudar.

Na área académica, Gouvânia ajuda com questões relacionadas com inscrições, exames de acesso, orientação universitária e informação sobre as opções disponíveis nas diferentes faculdades.

Actualmente, a comunidade de estudantes bolseiros angolanos reúne perto de 40 estudantes.

Entre as principais dificuldades está a adaptação à língua, seguida das diferenças culturais, gastronómicas e académicas. Há ainda uma preocupação recorrente: o atraso no pagamento dos subsídios.

Para fazer face às despesas, Gouvânia procura organizar-se financeiramente e quando a faculdade permite, recorre também a trabalhos em regime de part-time.

Levar Angola consigo

Longe de Angola, preservar a identidade tornou-se também uma forma de pertença.

A comunidade estudantil angolana participa em actividades promovidas pela Embaixada de Angola na República da Sérvia e em outros programas culturais. A música, a arte e o talento dos estudantes tornam-se instrumentos de representação do país.

Entre os estudantes existem cantores, instrumentistas e artistas. Há também uma identidade partilhada que aparece nas conversas, na forma de vestir e na maneira de viver.

Para Gouvânia, essa ligação começa no momento em que os estudantes chegam à Sérvia.

Mesmo longe de casa, continuam a carregar consigo aquilo que os identifica como angolanos.

A Medicina para além da sala de aula para quem escolheu uma profissão em constante transformação, aprender não pode terminar na universidade.

É por isso que Gouvânia considera particularmente importante a participação em congressos e eventos científicos, essas experiências permitem aos estudantes contactar com médicos, investigadores e outros profissionais, criar redes de contacto e conhecer novas oportunidades.

Permitem também acompanhar novas terapias, protocolos, tecnologias e descobertas.

Na sua perspectiva, é uma componente que poderia estar mais presente na formação académica, “a Medicina é uma arte que está em constante actualização”, afirma.

Por isso, aconselha os estudantes de Medicina a procurarem essas experiências sempre que possível.

O regresso a casa

O regresso a Angola não é, portanto, apenas uma questão sentimental. É também parte do seu projecto profissional, até porque Gouvânia quer utilizar aquilo que está a aprender no exterior para responder problemas concretos do seu país.

Promoção da saúde, prevenção de doenças, melhoria da qualidade dos cuidados e uma prática médica mais ética, humanizada e baseada em evidências estão entre os objectivos que pretende levar consigo.

Uma juventude que precisa de oportunidades

A sua própria história tornou Gouvânia consciente da importância de investir nos jovens.

A Semana Académica organizada pela Associação de Estudantes Angolanos, em colaboração com outras associações de estudantes angolanos espalhadas pela Europa, é um exemplo que guarda com especial importância.

Para ela, iniciativas desse género não servem apenas para aproximar estudantes, mas são também formas de construir comunidade e preparar uma geração que poderá contribuir para o desenvolvimento do país.

“A juventude é o futuro de um país e se investimos nela, estamos a investir também na melhoria do nosso país, que é Angola”.

O futuro depois da licenciatura

Os próximos anos já têm um rumo definido. Primeiro, terminar a licenciatura em Medicina com excelência, depois, iniciar a especialidade.

Mas, para além dos títulos académicos, existe um objectivo maior: regressar e contribuir para o desenvolvimento de Angola.

A experiência na Sérvia ensinou-lhe que estudar fora é muito mais do que atravessar uma fronteira para frequentar uma universidade, é aprender uma nova língua, enfrentar uma nova cultura, adaptar-se a um novo sistema académico, lidar com a distância da família e descobrir forças que talvez nem soubesse possuir, é também perceber que uma oportunidade individual pode transformar-se numa responsabilidade colectiva.

Aos jovens angolanos que pensam em estudar no exterior, Gouvânia não promete um caminho fácil.

A sua recomendação é outra: coragem, foco e disciplina.

Aconselha a quem decidir embarcar na aventura da distração de coisas da juventude a estar preparado para trabalhar, persistir e ultrapassar os momentos difíceis, porque, para ela, vale a pena estudar no exterior mudou completamente a sua vida ou seja deu-lhe conhecimento, independência e maturidade. Mas também reforçou o sentimento de pertença ao país onde nasceu.

Centro de Articulação com a Diáspora (CAD)