15 de September, 2026
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Angola quer transformar cooperação com Brasil em projectos concretos de industrialização

Secretário de Estado para a Indústria aponta agricultura, agro-indústria, cereais, soja, palma, açúcar, formação tecnológica e transferência de tecnologia como áreas prioritárias

Angola pretende dar um novo impulso à cooperação económica e industrial com o Brasil, apostando na transformação de matérias-primas, no aumento da produção nacional e na criação de cadeias de valor capazes de gerar emprego, reduzir importações e reforçar a capacidade produtiva do país.

A estratégia foi apresentada pelo Secretário de Estado para a Indústria de Angola Carlos Rodrigues, durante a Missão de Estudos do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) ao Brasil, realizada no âmbito do Memorando de Entendimento entre a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e o BAD.

Perante representantes angolanos, brasileiros e do Banco Africano de Desenvolvimento, o governante colocou a industrialização e a diversificação económica no centro da intervenção de Angola, defendendo uma cooperação que passe da partilha de experiências para a concretização de programas e projectos ajustados às necessidades do país.

Para o Secretário de Estado, o desafio de Angola não consiste apenas em produzir mais, mas em transformar a produção nacional em valor acrescentado, através da criação de cadeias de valor, do aumento do conteúdo local, da melhoria da produtividade e da geração de emprego qualificado.

A estratégia passa ainda por uma maior articulação entre agricultura, indústria, serviços e mercados, criando condições para que a produção agrícola possa alimentar uma indústria nacional mais competitiva e capaz de responder às necessidades internas.

Neste domínio, o Brasil surge como parceiro de referência. O Secretário de Estado destacou a experiência brasileira na agricultura tropical, investigação aplicada, assistência técnica e adaptação de tecnologias às condições locais como áreas de particular interesse para Angola.

O país pretende aproveitar essas experiências para transformar o seu potencial agrícola em produção regular e competitiva, orientada não apenas para o abastecimento da população, mas também para o fornecimento de matérias-primas à indústria.

A agro-indústria assume, neste quadro, uma posição estratégica. A transformação industrial da produção agrícola poderá permitir a redução de perdas, melhorar a conservação dos produtos, substituir importações, aumentar o valor acrescentado nacional e criar oportunidades de emprego em várias regiões de Angola.

Entre as áreas de cooperação identificadas estão a organização de cadeias de valor agro-industriais, instalação de unidades de transformação, armazenamento, logística, certificação da qualidade e aproximação entre produtores, cooperativas, empresas industriais e mercados.

A intervenção do Secretário de Estado colocou igualmente a formação profissional e tecnológica como condição indispensável para a modernização da indústria angolana.

Manutenção industrial, automação, digitalização, gestão e utilização eficiente da energia estão entre as competências consideradas necessárias para responder às exigências dos sectores produtivos. Neste sentido, a experiência brasileira do SENAI poderá contribuir para programas de formação orientados para as necessidades concretas das empresas angolanas.

A cooperação deverá também alcançar as micro, pequenas e médias empresas, aproveitando a experiência do SEBRAE, bem como os domínios da inovação, transformação digital e desenvolvimento de ecossistemas industriais, com recurso ao conhecimento acumulado pela ABDI.

No plano empresarial, Angola defende uma nova abordagem às relações económicas com o Brasil. A prioridade não deverá estar apenas na aquisição de equipamentos, mas na construção de parcerias que combinem investimento, transferência de tecnologia, formação de quadros, assistência técnica e produção local.

A aposta é criar relações empresariais sustentáveis, com capacidade para produzir efeitos duradouros no desenvolvimento industrial dos dois países.

Entre os sectores prioritários apresentados pelo Secretário de Estado estão o processamento de açúcar, a modernização da cadeia dos cereais, com destaque para trigo, arroz, soja e milho, e o desenvolvimento da cadeia de valor da soja e da palma, incluindo o processamento em óleo bruto, produção de ração animal e toda a cadeia logística associada.

A aposta nestes sectores reflecte a intenção de aproximar a produção agrícola da transformação industrial, permitindo que uma maior parcela do valor gerado permaneça na economia nacional.

É precisamente nesta integração entre agricultura e indústria que Angola identifica uma das maiores oportunidades para aprofundar a cooperação económica com o Brasil.

Para transformar estas prioridades em iniciativas concretas, o Secretário de Estado salientou ainda a importância de mecanismos adequados de financiamento e de redução do risco dos projectos, atribuindo ao Banco Africano de Desenvolvimento um potencial papel decisivo na estruturação de programas, mobilização de recursos e apoio à participação do sector privado.

A expectativa é que a missão permita seleccionar um conjunto limitado de áreas prioritárias, identificar experiências brasileiras adaptáveis à realidade angolana e preparar um roteiro de cooperação com objectivos, responsabilidades e prazos claramente definidos.

A continuidade do diálogo em Luanda deverá permitir aprofundar as matérias discutidas em Brasília, envolver as instituições angolanas competentes e avançar para a preparação de iniciativas-piloto.

Com esta visão, Angola procura fazer da cooperação com o Brasil e o Banco Africano de Desenvolvimento um instrumento efectivo de industrialização, diversificação económica, capacitação de quadros, transferência de tecnologia e aumento da produção nacional, transformando experiências e conhecimento em projectos concretos e sustentáveis.

A missão pretende, assim, marcar o início de uma cooperação prática e duradoura entre Angola, Brasil e o Banco Africano de Desenvolvimento, com foco na criação de novas capacidades produtivas e no fortalecimento das cadeias de valor nacionais.