Formação em Portugal reforça capacidade pedagógica dos hospitais angolanos
Directores pedagógicos e responsáveis pela formação, provenientes das 21 províncias, aprofundam competências para melhorar a planificação, gestão e avaliação da formação de profissionais de saúde
O investimento de Angola na formação e qualificação dos profissionais de saúde ganha uma nova dimensão com o reforço das competências dos responsáveis pelas estruturas pedagógicas e científicas das unidades hospitalares.
Directores pedagógicos e outros responsáveis pela formação, provenientes de unidades hospitalares das 21 províncias de Angola, encontram-se em Portugal, onde participam numa formação teórico-prática orientada para o diagnóstico de necessidades, planificação, gestão, acompanhamento e avaliação de projectos de formação em saúde.
A iniciativa enquadra-se no Projecto de Formação de Recursos Humanos para a Cobertura Universal de Saúde (PFRHS), financiado pelo Banco Mundial e implementado pelo Ministério da Saúde, através do Instituto de Especialização em Saúde (IES), por intermédio da Unidade de Implementação do PFRHS (UIP-PFRHS). O projecto prevê a formação de 38.000 profissionais de saúde até 2028.
A estratégia representa uma evolução importante na política de valorização dos recursos humanos. Não se trata apenas de formar especialistas, mas também de fortalecer quem tem a responsabilidade de organizar, acompanhar, avaliar e multiplicar a formação dentro das instituições de saúde.
Os profissionais foram acolhidos em Portugal a 29 de Agosto de 2026 e permanecem no país no âmbito de um programa que combina conteúdos teóricos, experiências práticas e acompanhamento in loco das actividades desenvolvidas pelas instituições parceiras.
Ao longo da formação, os participantes têm aprofundado competências relacionadas com o diagnóstico das necessidades institucionais de formação, definição de critérios, elaboração e planificação de projectos, acompanhamento e avaliação dos processos formativos.
A componente prática permite conhecer metodologias e instrumentos de gestão da formação em saúde, tendo em vista a sua adaptação à realidade angolana e posterior aplicação nas respectivas unidades hospitalares.
Para Flaviano Garcia Za Nzambi, Director Pedagógico do Instituto Hematológico , os conhecimentos adquiridos apresentam uma aplicação directa no trabalho desenvolvido diariamente pelas estruturas pedagógicas.
“A formação tem uma aplicabilidade directa no exercício das nossas funções. Estamos a trabalhar o diagnóstico das necessidades institucionais, a definição de critérios de formação, a planificação e a avaliação, ferramentas que poderemos levar para as nossas instituições.”
O responsável considera que o conhecimento adquirido deverá ser disseminado no regresso a Angola, contribuindo para uma abordagem mais estruturada dos processos de formação de médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e outros profissionais de saúde.
É precisamente nesta capacidade de multiplicação que assenta uma das dimensões estratégicas da formação. Ao regressarem ao país, os participantes deverão actuar como agentes de transferência de conhecimento, levando novas ferramentas e metodologias para as equipas pedagógicas e científicas das unidades hospitalares.
No Hospital Comandante Raul Díaz Argüelles, no Cuanza Sul, a Direcção Pedagógica acompanha actualmente um universo expressivo de profissionais em formação.
A Dra. Sónia da Silva, médica ginecologista-obstetra e Directora Pedagógica da instituição, explica que o hospital conta actualmente com 85 médicos internos, 134 enfermeiros internos e cerca de 130 técnicos de diagnóstico e terapêutica, integrados em diferentes processos de formação e especialização.
Segundo a responsável, os conhecimentos adquiridos em Portugal poderão contribuir para melhorar a organização, o acompanhamento e a avaliação desses processos.
“Estamos a adquirir conhecimentos que serão importantes para regressarmos às nossas unidades e implementarmos as actividades de formação de forma mais estruturada. Há uma grande expectativa dos profissionais e dos formandos.”
Para o Dr. Gade Miguel, Director Científico do Complexo Hospitalar de Doenças Cardiorrespiratórias Cardeal Dom Alexandre do Nascimento (CHDCP), o investimento na formação deve acompanhar a expansão e modernização da rede sanitária nacional.
“O país vem ganhando diversas infra-estruturas hospitalares, muitas delas de alta complexidade. Esse investimento deve ser acompanhado pela formação diferenciada dos profissionais que vão assegurar o seu funcionamento.”
O responsável destaca que a formação especializada tem permitido responder progressivamente a necessidades concretas das unidades e do Sistema Nacional de Saúde, incluindo áreas de elevada diferenciação.
Entre os exemplos está a cirurgia cardíaca pediátrica, área em que o reforço da formação de especialistas contribuiu para ampliar a capacidade assistencial do país.
Segundo explicou, em cerca de dois anos de actividade foram realizadas aproximadamente 300 cirurgias em crianças, ao mesmo tempo que o processo formativo contribuiu para aumentar o número de cirurgiões capacitados nesta área.
“É um sentimento de realização ver crianças que chegam com problemas complexos e que, depois de tratadas, podem voltar a sorrir.”
Para o especialista, o próximo desafio passa por consolidar serviços cada vez mais completos, integrando médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais de apoio numa cadeia de atendimento capaz de proporcionar ao doente uma experiência mais segura, eficiente e humanizada.
No Hospital Central de Cabinda, o Director Pedagógico e Científico, Carlos de Nascimento Casimiro, destaca a crescente responsabilidade das estruturas de formação na organização e coordenação dos processos formativos.
Segundo o responsável, para além de coordenar as actividades pedagógicas da unidade hospitalar, a estrutura acompanha também a actividade formativa do polo de formação, abrangendo profissionais de diferentes unidades e províncias.
“Nós, para além de coordenarmos a actividade formativa do hospital, acabamos também por coordenar a actividade formativa a nível do polo de formação e, nesta altura, contamos com profissionais provenientes de outras províncias.”
Actualmente, o polo acompanha cerca de 260 internos em formação, distribuídos por 38 especialidades, realidade que, segundo Carlos de Nascimento Casimiro, reforça a importância de dotar os responsáveis pedagógicos de ferramentas adequadas para a gestão dos processos formativos.
O responsável destaca igualmente a dimensão internacional da formação apoiada pelo PFRHS, com profissionais angolanos a darem continuidade à sua formação no exterior, nomeadamente em Portugal e no Brasil.
“No âmbito do projecto de formação e em parceria com a UIP-PFRHS, temos colegas que estão a dar continuidade à formação no exterior do país, nomeadamente em Portugal e no Brasil. Agora, nós, directores pedagógicos, também estamos a beneficiar desta formação e, no final deste processo, vamos sair todos daqui mais preparados para melhorar o nosso trabalho.”
A presença dos directores pedagógicos em Portugal assume, assim, uma dimensão que ultrapassa a experiência individual dos participantes.
O conhecimento adquirido no exterior deverá transformar-se em capacidade instalada dentro das instituições angolanas.
Ao regressarem ao país, os profissionais deverão apoiar as equipas pedagógicas e científicas, contribuir para a identificação das necessidades de formação e aplicar ferramentas de planificação, acompanhamento e avaliação adaptadas à realidade de cada unidade.
A missão permite igualmente conhecer experiências de outras instituições e reflectir sobre os resultados do investimento realizado na formação de recursos humanos, incluindo o número de profissionais em especialização, as áreas prioritárias e a distribuição das oportunidades de formação entre Angola e o exterior.
Neste modelo, cada participante torna-se um elo entre a experiência internacional e a realidade das instituições angolanas, permitindo que uma formação realizada no exterior produza efeitos para além do beneficiário directo.
A lógica é simples: um profissional formado pode fortalecer uma equipa; uma equipa fortalecida pode melhorar uma unidade; e unidades com maior capacidade de formar e gerir profissionais contribuem para um Sistema Nacional de Saúde mais preparado para responder às necessidades da população.
A formação em Portugal integra a componente de cooperação internacional do PFRHS, que tem permitido a profissionais angolanos frequentarem programas de formação e especialização em diferentes áreas e instituições de referência, com destaque para Portugal e Brasil.
A estratégia procura assegurar que o investimento realizado no exterior seja acompanhado por mecanismos de retorno, integração e multiplicação de competências em Angola.
Mais do que uma missão de formação, a experiência representa, por isso, uma aposta na sustentabilidade do conhecimento, fortalecendo a capacidade das próprias instituições para formar, acompanhar e avaliar os seus profissionais.
O objectivo final é transformar o investimento em recursos humanos em resultados concretos: mais especialistas, instituições mais capacitadas, melhores serviços e cuidados de saúde de maior qualidade, segurança e humanização para a população angolana.
Fonte: GTICI/IES/UIP-PFRHS – Ministério da Saúde










